Eu confesso, sou um entusiasta do passado. Não um saudosista patológico, melancólico, mas alguém que entende que as décadas passadas produziram coisas ainda não superadas ou, ao menos, equiparadas em significado, importância, carisma e popularidade. Ouso dizer que algumas delas NUNCA serão ultrapassadas porque estão cristalizadas na condição de ícones.

Vocês podem imaginar o quão contraditório pode ser para alguém que tem um canal de YouTube chamado Canal Flashback, EU, relatar impressões acerca de um evento como a feira Brasil Game Show, que traz os lançamentos, as NOVIDADES do mundo dos jogos eletrônicos?

Reconheço que aprecio a qualidade gráfica dos jogos atuais, mas não me sinto seduzido ou disposto encarar longas filas por alguns instantes de atordoamento. Sim, atordoamento, porque dificilmente eu iria conseguir me manter vivo num jogo de combate em meio a zumbis, soldados ou gangues cibernéticas disparando contra mim. No Contra, do Nintendinho, eu até passava de fase, hahaha!

ASTRO BOT: A GRATA SURPRESA

Ainda assim, passando em frente ao mega estande da Sony, os aparelhos de VR (virtual reality, realidade virtual) e uma tela de gráficos coloridos e “calmos” me chamaram a atenção. Ainda era a quarta-feira, dia fechado ao público e voltado apenas a expositores, convidados VIP e imprensa. Por isso, a fila não era tão grande.

Resolvi me aproximar e perguntar à moça da Sony qual era o tempo de espera. Ela disse que era difícil dizer e perguntou se eu tinha interesse em algum jogo em especial. Falei que eu era “das antigas” e que não sabia jogar com esses controles cheios de botões. Disse que queria algo simples e comentei sobre o tal jogo dos gráficos coloridos. Ela disse:

“Ah, o Astro Bot! Tem duas estações rodando ele. Fica tranquilo que você vai conseguir jogar. Ele tem desafio, mas não é tão complexo de aprender. Pode entrar que assim que terminar com um dos jogadores já vai ser a sua vez.”

Agradeci e fui já para a “cara do gol”, feliz pela rapidez, mas preocupado em sobreviver e jogar de modo decente. Embora seja um jogo de realidade virtual, ele tem monitores para o público ver como o jogador está se saindo. Chegou minha vez. Frio na barriga! Meu primeiro encontro com o PlayStation 4.

Enquanto o rapaz monitor da Sony higienizava os óculos de realidade virtual, lembrei de outras experiências minhas com a tecnologia VR. Uma delas foi na exposição da Embraer, no Museu da Casa Brasileira, em que era possível visitar virtualmente o KC-390, avião cargueiro militar fabricado pela empresa. A sensação de imersão no cockpit e no compartimento de cargas era mais que real, era assombrosa! Então eu tinha uma noção do que me esperava…

Repeti ao rapaz monitor da Sony a minha falta de familiaridade com os consoles modernos e ele foi super paciente enquanto explicava os comandos. Com o dispositivo VR colocado em frente aos olhos e fones nos ouvidos, a tela era preta, mas eu já estava praticamente isolado do mundo exterior. Aí apareceu um planetinha em que o rapaz selecionou a fase para eu jogar.

A primeira impressão quando a gente entra na fase é assustadora! O cenário é absolutamente envolvente: você olha pra cima e vê um céu azul maravilhoso; à frente e à minha volta, plataformas suspensas, escadas, rampas, passarelas estreitas, inimigos e moedinhas a serem recolhidas. Algo meio Mario, meio Sonic… O enredo é, igualmente, simpático. Nosso personagem é um robozinho azul com um foguete fixado às costas que precisa libertar outros robozinhos aprisionados em objetos.

Os comandos básicos, realmente, são simples: com a alavanca direcional, a gente move o robô em qualquer direção que quiser. Um dos botões pula e, acionado novamente num certo timing, sustenta o personagem num voo bem curto, mas que vai se mostrar muito útil em momentos específicos. Outro botão golpeia objetos e inimigos. Quando a gente passa de fase, surge um palco super festivo e os robozinhos dançam todos felizes com um baita gingado, é hilário, engraçadíssimo!

O jogo é lindo é muito bom de jogar! Quem acompanhou a chegada dos videogames desde o Telejogo Philco-Ford, entende o quanto de trabalho e know-how foi necessário para se chegar até esse nível de tecnologia. Se o espartano Telejogo proporcionou algumas das minhas primeiras interações com a TV e marcou minha vida com essa possibilidade quando eu tinha uns 4 anos, essa experiência de jogar com óculos de realidade virtual, para mim pelo menos, também marca o início de um capítulo incrível de interação com o mundo dos jogos eletrônicos: me senti DENTRO de um game pela primeira vez, literalmente! Não por imaginação ou força de expressão, mas porque era isso o que os sentidos estavam dizendo ao meu cérebro!

O jogador, inclusive, PRECISA girar a cabeça e até o corpo para conseguir acompanhar e enxergar para onde o robozinho está indo e evitar que, durante a aventura, ele caia do percurso lá embaixo, e atravesse o tapete de nuvens. Provavelmente, não consegui segurar o meu queixo, que despencou… O tempo de test play foi generoso: oficialmente eram 15 minutos, mas arrisco dizer que foram mais de 20 minutos. No último dia, agendei e fui jogar de novo!

A EVOLUÇÃO DOS VIDEOGAMES

Tive a oportunidade de visitar o espaço dedicado à trajetória dos consoles antigos, representada pela coleção do Marcelo Tavares, idealizador da feira, na companhia do professor cearense Daniel Gularte, do Bojogá, figura emblemática na cena nordestina do retrogaming brasileiro. Garanto que a experiência foi especialmente enriquecedora, pois o cabra que me acompanhou entende muito de games antigos, exposições e museologia.

O GUARDIÃO DA SEGUNDA GERAÇÃO

Mais uma vez, encontrei com o “amigo tardio de infância” Marcus Vinicius Garrett Chiado, que já nos brindou com tantos livros sobre a chegada dos videogames ao Brasil e com o documentário definitivo sobre o tema, do qual, orgulhosamente, faço parte: 1983: O Ano dos Videogames no Brasil.

Nos conhecemos em 2008, quando eu trabalhava na TV Gazeta. Gravamos uma reportagem sobre os 25 anos da chegada do Atari ao Brasil. Eu não podia imaginar que, desde então, essa amizade só aumentaria!

O DONO DO NEGÓCIO TODO!

Uma das maiores realizações da Brasil Game Show é, sem dúvida, colocar os jogadores frente a frente com os ídolos. E Nolan Bushnell, fundador da Atari e um dos pioneiros na indústria multimilionária dos videogames, é uma dessas personalidades. Na minha opinião, a maior lenda viva pela importância de seu trabalho.

No primeiro dia do evento, ele participou de um bate-papo com o público. Relatou sua trajetória no desenvolvimento dos primeiros ensaios de jogos eletrônicos. Ilustrou as etapas com fotos de arquivo pessoal, coisas que eu nunca tinha visto. O público ocupava apenas metade dos assentos disponíveis, pessoas na faixa dos 30 aos 40 anos.

Os estandes vizinhos desrespeitavam as normas de emissão de ruídos: música e narração em volume altíssimo atrapalharam a comunicação entre público, apresentadores/tradutores e Mr. Bushnell, o que levou o bate-papo a ser encerrado, mesmo tendo começado com meia hora de atraso… Lamentei o ocorrido mas me senti privilegiado por ter assistido na primeira fila.

Meu outro encontro com Nolan Bushnell ocorreria na sexta-feira, dia 12 de outubro, dia de todas as crianças, inclusive daquelas que ainda vivem dentro da gente. Na BGS anterior, eu não consegui localizar em casa meu Atari a tempo para que ele o autografasse. Mas, desta vez, levei um console Darth Vader zerado de 1984, que era da minha tia, novíssimo, uma relíquia!

Vestido com minha camiseta do Atari, fui com o Denis Bortolaço até a fila que já se formava 45 minutos antes do início do Meet & Greet. Quando ele apareceu foi saudado pelas crianças de outrora. Foi emocionante participar desse momento, não apenas porque eu ia ter meu Atari autografado, mas, também, porque muitos amigos retrogamers estavam ali na fila juntos, vivendo as mesmas emoções.

O Denis Bortolaço cuidou das minhas fotos, enquanto deixei meu telefone registrando o momento em vídeo nas mãos do Juninho Vedovello. Daniel Ravazzi também registrou o momento do ponto onde estava na fila. Mr. Nolan Bushnell é generoso e divertido. Assim que eu me aproximei, ele disse que minha camiseta era muito bonita. Respondi agradecendo pelo elogio e por ter vindo mais uma vez se encontrar com os admiradores brasileiros.

O encontro fica ainda mais relevante e comovente quando a gente pensa que, muitas das memórias mais queridas da nossa infância com o Atari tiveram influência direta daquele senhor. Claro que, mesmo que Nolan Bushnell nunca tivesse existido, mais cedo ou mais tarde, um outro videogame teria sido lançado, não sabemos se com a mesma popularidade, mas o aparelho e os jogos, provavelmente, teriam outra cara, outra personalidade.

Ou, talvez, num cenário sem Atari, o Odyssey e o Intellivision teriam tido mais espaço e dividido o mercado no Brasil? E depois deles teríamos passado direto para Master System e Famicom/Nintendinho? Essas são meras especulações… Mas é difícil imaginar os anos 80 sem o Atari… Thank you, Mr. Bushnell!

UM BANCO DE DADOS INSANO

Pense numa conexão imediata com alguém, motivada por uma paixão ou hobby em comum. Agora some a isso uma afeição instantânea pela personalidade desse alguém. Esse “alguém” é o Edson Godoy, que está à frente do VGDB, o Video Game Data Base. O cara tem até um troféu que endossa o diagnóstico de sua insanidade. Que satisfação revê-lo, rapaz! Sempre com um sorriso, sempre atencioso, apesar do cansaço.

Se você AINDA não conhece, recomendo que repare esse erro imediatamente e acesse o VGDB, o Banco de Dados Insano Sobre Jogos Eletrônicos, em minha livre tradução.

Os irmãos do VGDB, nossos vizinhos de BGS, compartilharam mais que espaço físico, conversas e brincadeiras divertidas, como o Show do Milhão, com o Silvio Santos do “mundo invertido”, Mozart Geraldo. Participaram, mais uma vez, das gravações de lembranças gamísticas nas EPROMS dos nossos cérebros.

ROXOS DE PAIXÃO

And last, but not least… E por último, mas não menos importantes, os “camaradinhas”, como diz o Cleber Marques, da WarpZone! Desde que os conheci na BGS 2017, fiquei impressionado com a qualidade das publicações deles. Não é novidade, sempre digo isso pro Cleber.

Além das viciantes publicações com biografias de personagens como Mario, Sonic, Megaman e companhia, os caras trouxeram ao estande, para qualquer um que quisesse jogar, duas máquinas arcade, popularmente chamadas de “fliperama” aqui no Brasil.

E, ainda, apresentaram um “boneco”, uma prova inacabada, como chamamos no mundo editorial, do livro Essencial Street Fighter, que encantou a todos os visitantes. O lançamento está marcado para sábado, 17 de novembro, na MAX Arena, bairro da Moóca, em São Paulo. Tem tudo para repetir o sucesso estrondoso do livro luxuoso sobre o Mega Drive, uma obra apaixonante e, na minha opinião, definitiva sobre o console clássico de 16 bit da SEGA!

Sou jornalista há dezessete anos, com passagens por todas as emissoras de TV, exceto a Band, e colaborei para diversos títulos da editora Abril, entre Veja, Quatro Rodas, Superinteressante e Aventuras na História. Posso dizer que as publicações da WarpZone não devem NADA aos produtos de grandes editoras ou veículos.

Arrisco dizer que até excedem a imprensa tradicional, generalista, em informação de qualidade, precisa e inédita sobre games, porque são feitos de fãs para fãs. O acabamento dos produtos é um show à parte! Não é à toa que já contam com uma ampla base de apoiadores e admiradores, incluso este que vos escreve.

Por isso, ressalto que fiquei feliz e honrado com o convite para relatar o que vivi na BGS 2018 e agradeço de coração a todos pela calorosa acolhida no time desses carinhas da WarpZone, ROXOS DE PAIXÃO PELOS GAMES CLÁSSICOS!

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