Quem já vem seguindo o Mini a algum tempo sabe que trabalhei (Marcel escrevendo aqui), por um período, em Campinas, no varejo de games e consoles. Por uma época trabalhei para uma “rede” de lojas (quatro lojas do mesmo dono), primeiro como atendente, depois como gerente (pessoa que era chamada quando o cliente começava a gritar).

Eu já havia trabalhado em Varejo antes, numa rede de lojas de RPG e quadrinhos chamada “Terramédia” (que era um braço de varejo da editora “DEVIR”, a qual trouxe muitos RPGs para o país). Um certo dia fui na “loja principal” da rede, comprar um Game Cube, e dei de cara com dois casais, acompanhados por 3 crianças com os pais discutindo com as crianças, amigavelmente, qual videogame era o melhor para que todo mundo tivesse o mesmo.

Na frente deles uma atendente da loja fazia o máximo possível para parecer atenta e disposta a responder perguntas, enquanto mantinha um meio sorriso no rosto. As mães passavam os olhos pelos jogos e pareciam progressivamente cada vez mais assustadas com os mesmos.

Ao final das prateleiras estava eu, gordinho, bem-vestido e com carinha de bom moço. Uma delas se aproximou e imediatamente se identificou. Sem me dar tempo de retornar o “Boa tarde” ela começou a me explicar como ela e a outra mãe estavam extremamente desapontadas com toda aquela violência nos jogos e me perguntaram se eu não era um pouco adulto demais para estar “jogando videogame”.

Com todo o cuidado do mundo eu olhei para as duas fazendo o melhor esforço possível de não deixar surgir no meu rosto o julgamento todo que eu estava fazendo do comportamento delas, falei que não. Expliquei que videogames já haviam deixado, a um bom tempo, de serem entretenimento voltado a crianças e que muitos jogos tinham estórias complexas e adultas. Aproveitei a deixa para emendar que, ademais, a existência de centenas de jogos violentos, a indústria era grande o suficiente para ter espaço para muitos outros estilos de jogos.

As duas se entreolharam e imediatamente pularam no vagão da profanidade. Existiam jogos bons, é claro, mas elas já haviam sido informadas, no passado, que em alguns jogos o protagonista combatia demônios e monstros satânicos e que, em alguns jogos ainda mais terríveis, você trabalhava a favor das forças de Belzebu.

De toda forma eu me senti desafiado naquele momento: Os games tinham que ser defendidos!

Olhei para as duas, respirei lentamente e com calma, coloquei meu melhor sorriso e comecei, primeiro, falando sobre as capacidades diversas dos jogos de educar. Falei sobre jogos que tinham bases históricas e ensinavam isso através do uso de estratégia (como Civilizations), humor (como Asterix) ou construção de cenários (mais exemplos do que teria espaço no site da WarpZone para colocar). Em seguida fui entrando pelas constatadas pesquisas que mostravam notada melhoria na capacidade cognitiva de crianças que tinham constante, e controlado, acesso a videogames.

Em seguida desbravei os dados de como crianças, entre 4 e 12 anos, tinham desenvolvimento espacial e de destreza manual, sensivelmente melhor, quando expostas a videogames, principalmente aqueles em um universo 3D. E, após cerca de 25 minutos falando basicamente sem respirar, eu estava apresentando a elas diversos jogos de Cube e PS2 que poderiam ser utilizados por pessoas de qualquer idade, sem problemas ou riscos.

Foi mais ou menos aí que eu percebi que a loja estava em completo silêncio e minha voz era a única coisa ressoando.

Oito clientes, os dois casais, as crianças, o dono, que para proteger a identidade vou chamar unicamente de “Chefe”, sua esposa, seus dois filhos, e as duas funcionárias me olhavam com interesse. Por fim o “Chefe”, olhou para mim e falou “Pode prosseguir se quiser”.

Todo mundo riu, inclusive eu, e voltei a mostrar para as mães, e aos outros clientes, diversos jogos, alguns que tinha jogado, e muitos sobre os quais só tinha lido, como excelentes opções – com todo o cuidado de, o tempo todo, orientar os casais com crianças sobre a idade adequada dos jogos e como, caso eles prefiram, a ESRB colocava na capa dos jogos a classificação etária para os mesmos.

Os pais pararam na minha frente, lado a lado com as mães empolgadas, com as possibilidades de jogos da Nintendo (incrível como todo mundo sempre conhece Mario, não?) e, pareciam lêmures de frente a faróis de carros, divididos entre dizer não a suas esposas entusiasmadas ou se darem por vencidos e levarem Game Cubes para as casas.

Um deles, mudando rapidamente de cerne, resolveu que a melhor solução era “jogar a responsa no gordinho falante” e perguntou, apontando entre um Cube e um PS2:

– Qual deles é melhor?

Não tive dúvidas:

– Melhor ou mais acertado para vocês? São duas perguntas bem diferentes.

Os casais pararam e se entreolharam. Expliquei que o Cube era tecnicamente mais capaz que o PS2, lidava melhor com texturas, era mais capaz com iluminação em tempo real e tinha um sistema de correção no drive de Mini DVD que permitia que o disco, mesmo um pouco riscado, continuasse funcionando. Além disso era, na minha opinião, mais bonitinho, tinha um controle melhor e era bem mais compacto. Ou seja, ele era um aparelho melhor.

Continuei, no entanto, explicando que o PS2 tinha uma gama muito superior de jogos, com muito mais títulos, dos mais variados gêneros, os controles eram mais baratos, os memory cards são mais caros mas têm bem mais espaço de trabalho, o console pode ser usado como um player de DVD e é, claro, havia o fator pirataria, que permitia que aquisição dos jogos fosse realizada de forma muito mais barata.

As mães pararam e pensaram por alguns segundos, e uma delas esboçou um “Então o segundo é bem melhor né?” para si mesma e o outro casal. Aí apontei para os jogos de Game Cube fofinhos na mão dela e disse: – Só que não tem acesso aos jogos da Nintendo.

As mães dialogaram entre si e pareciam indecisas. Aí peguei um “Jak and Dexter” de PS2 numa mão e “Luigi Mansion” de Cube na outra, virei para uma das atendentes, que vou chamar aqui de “Cleo”, perguntando quanto cada um custava, e repassei as mães. Levantando primeiro “Jak and Dexter” pirata e falando “10 reais”, abaixando minha mão e levantando a outra com “Luigi Mansion” e soltando “150 reais”.

As duas se olharam, olharam para os maridos, um dos maridos olhou para mim, todo mundo sorriu, e o outro marido falou: – Acho melhor irmos no videogame dos jogos mais baratos, não?

Era óbvio a felicidade no sorriso dos maridos e das crianças: o PS2 era o que eles queriam, afinal, e eu havia, com a apresentação do preço e dos jogos fofinhos, colocado as resistentes mães no mesmo barco que eles. As crianças me perguntaram de jogos enquanto seus pais fechavam o pagamento e, quando eu me virei para pegar meus games e pagar, dei de cara com o “Chefe”. O homem olhou para mim e fez um sinal com o dedo para eu chegar no fundo da loja.

O “Chefe” era, já nessa época, ademais não idoso, era o que as pessoas classificam como “cansado”. Ele me olhou de alto abaixo e soltou um:

– Você trampa com isso?

Verdadeiramente confuso respondi: – Isso o quê?

– Videogames. Você trabalha para quem?

Respondi tão fracamente quanto possível:

– Não… eu não trabalho com isso. Até algum tempo atrás eu…

Ele me cortou e soltou um:

– Então vem trabalhar para mim.

Na época eu estava dando aulas e fora de qualquer empresa em si. A oportunidade de um salário fixo, no qual seria possível contar, seria interessante. Sentei com o “Chefe” e acertei salário, horas de trabalho e tive a oportunidade de falar sobre minhas outras experiências de trabalho. A equipe da loja, com quem eu já comprava coisas a anos, parecia mais feliz do que eu e, feliz com a situação toda, voltei para a casa para contar para a namorada da época sobre a situação toda.

E disso tiramos duas lições:

Primeira: Se possível trabalhe com o que você gosta. Não importa quão difícil seja a situação, se você gosta do que faz, vai sempre achar alguma satisfação ali.

Segunda: Eu falo demais!

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