Sinceramente, eu não me lembro com certeza qual foi o ano em que eu vendi minha coleção, mas garanto que esta história ficou tão marcada pra mim que lembro dos outros detalhes, só o ano que não.

CAIXA DE SAPATO

Eu já colecionava jogos fazia um tempo. Toda vez que o meu pai voltava do Paraguai trazia ao menos uma fita para mim, ou quase toda vez, pois ele ia todo final de semana pra lá, e eu conseguia dinheiro apenas uma vez por mês, pois precisava conciliar a compra das fitas coloridas (bastante comuns por lá no Paraguai) com as revistas na banca, como a Ação Games, Super GamePower, Herói, entre outras.

Com isso, eu já tinha uma coleção bem bacana, praticamente duas caixas de sapato cheias de fitas loose (para quem não conhece o termo, é algo como uma fita sem caixa nem manual, apenas a fita). A caixa de Nintendinho era a mais bonita, porque era toda colorida, tinha cartucho de tudo quanto era cor: amarelo, azul, rosa, preto e por aí vai.

Entre os jogos, eu tinha muitos hacks ou piratinhas, e eu adorava os de Super Mario. Na minha coleção havia o Mario 4, 8, 12, e ainda jogos como Cavaleiros do Zodíaco, World Heroes, Fatal Fury, Mortal Kombat e etc.

Fitas/Cartuchos coloridos de Nintendinho (Foto de Internet)

A caixa de Super Nintendo era de uma cor só, mas era a mais cobiçada. Havia ali Rockman X, Super Mario All Stars, Rockman 7, só coisa boa, muito boa. Se juntasse as duas caixas com as fitas uma em cima da outra dava quase a minha altura!

Que pena eu não ter como tirar foto daquilo na época… Claro, pode parecer uma coleção simples e pequena, mas era o meu maior tesouro até então.

O PLANO INFALÍVEL

Numa revista de videogame da época eu li a notícia que me deixou maluco, a Nintendo estava preparando um projeto para a nova geração dos videogames, era um tal de ULTRA 64 e até o seu controle seria animal, fiquei impressionado. Vi fotos do Super Mario 64, do que seria o Final Fantasy 64 e outros detalhes que me fizeram naquele momento pensar: Vou ter um ULTRA 64!

Foi então que eu decidi, com uma dor muito grande no coração, vender a maior parte das minhas fitas (menos a dos Cavaleiros do Zodíaco, eu expliquei o motivo aqui), tanto de Nintendo quanto de Super Nintendo. Os consoles eu acabei por ficar, uma ou outra fita também.

O plano era infalível, pois o meu pai tinha uma “banca do Paraguai” numa esquina bem movimentada no bairro que eu morava em São Paulo. Era colocar e vender.

Controle do Nintendo 64, que me impressionou na época

A lista das fitas foi feita, calculei o preço de cada item para que fosse possível comprar o ULTRA 64 já no lançamento e, por fim, deixei meu pai levar tudo que eu tinha pra vender, e vendeu rápido. Em menos de um mês, eu estava com todo o dinheiro na mão, ou melhor, o meu pai estava.

Todas as fitas separadas foram vendidas, aquele meu Rockman 7 piratinha que era lindo, como eu adorava ele. Mas, foi por uma boa causa, o meu ULTRA 64 era mais real do que nunca.

E O PLANO FALHOU

Num belo dia, lá ia meu pai ao banco tirar o dinheiro que ele levaria para o Paraguai naquele final de semana, ele “movimentaria” o meu dinheiro até que o ULTRA 64 fosse lançado e, se não me engano, faltava pouco tempo pro lançamento.

Porém, naquele fatídico dia infelizmente o meu pai foi assaltado. Não tenho muitos detalhes, mas levaram todo o dinheiro, o meu e o dele que, diga-se de passagem, era muito mais do que o meu. Fiquei sem meus jogos e sem dinheiro para o ULTRA 64.

Nosso livro com os 101 Games Inesquecíveis do N64 (Foto por Denis Bortolaço)

O ULTRA 64 foi lançado e se chamava Nintendo 64, eu comprei no final das contas um PlayStation e fui feliz por muito tempo com ele. Fiquei muito chateado com a situação, passamos por mais dificuldades do que o normal na época, mas estávamos felizes por não ter acontecido nada com o meu pai, ainda bem.

Tenho mais umas duas histórias trágicas como essa, mas conto em outra oportunidade. Hoje em dia, tenho novamente minha coleção, com novos itens e itens que sobraram da época, e meu pai está muito bem, obrigado.

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