
A Pior Geração de Consoles? Um Breve Olhar Sobre o Presente dos Games
Quando criança, ganhei meu primeiro console: um Turbo Game CCE. O ritual de ir à locadora nos finais de semana para alugar filmes rapidamente se transformou em algo ainda mais mágico: alugar jogos.
Videogames sempre foram caros, e no fim dos anos 80 e início dos 90 eram ainda mais inacessíveis. Tive meu Turbo Game por muitos anos, mas apenas com o jogo que vinha junto. Tanto que foi necessário fabricar consoles nacionais para que os brasileiros pudessem aderir à tecnologia. Os famosos clones.
Mesmo após o fim da Lei de Reserva de Mercado em 1991, os brasileiros continuaram dando seu “jeitinho” para conseguir consoles e jogos: comprando no carnê, alugando, emprestando ou recorrendo à pirataria.
Em 1992, quando tive meu Turbo Game, o número de jogadores no mundo não passava de 70 milhões na melhor das estimativas. Com o tempo, a mídia se popularizou e hoje estamos na casa dos bilhões.
Revistas especializadas, locadoras e camelôs popularizaram o videogame, que finalmente entrou nos lares brasileiros. No fim da sétima geração (Nintendo Wii, PlayStation 3, Xbox 360), os consoles já eram bem mais acessíveis.
A Era de Ouro

Com a popularização da internet, as conferências de games, antes restritas a revendedores norte-americanos, explodiram em audiência e se tornaram grandes shows transmitidos online, superando até eventos esportivos.
Nosso hobby cresceu: todos jogavam, seja em consoles, PCs, portáteis ou nos primeiros smartphones. Vibrávamos quando nossos CEOs favoritos subiam ao palco da E3: Satoru Iwata, Jim Ryan e Phil Spencer eram vistos como “gamers como nós”. Cada aparição parecia a visita de um amigo trazendo boas notícias. Parecíamos estar vivendo na era de ouro dos videogames e nada poderia abalar esse mercado.
Na difícil transição para a oitava geração, vimos Phil Spencer “salvar” o Xbox ao reverter decisões anti-consumidor de Don Mattrick. Também vimos Satoru Iwata reduzir o preço do Nintendo 3DS, que encalhava nas prateleiras, chegando a cortar seu próprio salário e o de executivos para salvar a empresa na transição para o Wii U. A Sony, após o hack da PSN, pediu desculpas sinceras, oferecendo jogos gratuitos e 30 dias de serviço. O futuro dos games parecia brilhante.
A Nona Geração: Crise e Desencanto

Avançamos para 2026. A nona geração é considerada por muitos como a pior da história. Pela primeira vez, os consoles não reduziram de preço — ao contrário, ficaram mais caros, assim como acessórios e jogos. Estúdios lendários fecharam após anos de má gestão, pressionados por acionistas.
Marcas queridas perderam identidade. A Sony passou a relançar remakes de jogos recentes, e seguir a mesma fórmula em seus títulos. A Nintendo apresentou um “Switch Pro”, inteligentemente batizado de Switch 2, mantendo muito do original. A Microsoft recuou, demitindo em massa e cancelando projetos aguardados há anos. Surgiram os PCs portáteis, mas falharam em conquistar público devido ao preço elevado e hardware defasado.
Os preços dispararam mês após mês, acompanhados de decisões cada vez mais anti-consumidor. Não vimos mais CEOs “amigões” trazendo novidades; as empresas se distanciaram dos jogadores e passaram a ser vistas como hostis. A pirataria ressurgiu no PC e no Switch, enquanto o backlog ganhou força.
Essa geração trouxe “evoluções” de hardware desnecessárias, jogos a 80 dólares e uma nova leva de jogadores ignorando os ecossistemas tradicionais. As vendas de consoles caíram, empurrando parte do público para o PC. Porém, com os data centers de IA consumindo hardware em escala, montar um PC gamer tornou-se quase impossível. A indústria AAA, motor do setor por décadas, pisou no freio em 2025, sufocada por prazos, orçamentos gigantescos e falta de criatividade.
Nem tudo está perdido

Nós, que crescemos com videogames e muitas vezes moldamos nossa identidade em torno deles, nos encontramos cada vez mais seletivos e menos empolgados com novos anúncios. O brilho dos grandes lançamentos diminuiu. Mas há esperança. Sempre que um sistema incha demais e perde o rumo, uma contra cultura surge.
Enquanto as gigantes lutam para se manter relevantes, os jogos Indie e Double A vêm revitalizando a indústria. A criatividade voltou a ser valorizada, e títulos feitos por pequenos times — ou até por uma única pessoa — dominam o cenário. São jogos criados com paixão, como nos primórdios da história dos videogames. Com preços muito mais acessíveis e experiências de qualidade.
Mesmo com assinaturas cada vez mais caras, algumas ainda valem a pena, especialmente quando podemos assinar, jogar o que queremos e cancelar em seguida.
Jogadores vêm redescobrindo clássicos por preços acessíveis, impulsionando remasters e remakes de qualidade. A mídia física, quase extinta, ainda existe em consoles da geração passada e pode ser comprada online a preços baixos.
A indústria dos games não está em declínio, mas em transformação. Como sempre, ela se reinventa diante das crises e encontra novos caminhos. Enquanto as gigantes buscam se adaptar, os jogadores redescobrem a essência que nos fez apaixonar por esse universo: experiências simples, criativas e cheias de emoção.
Comunidades se formam, clássicos ganham nova vida e os indies mostram que ainda há espaço para inovação genuína. No fim, pouco importa a plataforma, o que permanece é a alegria de jogar e compartilhar histórias que atravessam gerações.







