Quarenta anos depois e com um pedido de destruição cumprido, o Fofão retorna às prateleiras. Mas e a maldição?

Existe no folclore do brinquedo brasileiro um caso único: um objeto de consumo infantil que virou lenda urbana, gerou pânico nacional, teve seus moldes originais queimados por vontade do próprio criador — e ainda assim voltou. A Novabrink apresentou durante a ABRIN 2026 dois novos bonecos do Fofão: uma versão de 35 cm voltada ao público colecionador e um minifofão de 15 cm em formato de chaveiro. Simples assim, como se nada tivesse acontecido entre 1984 e hoje.

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Mas aconteceu muita coisa.

A criação

Orival Pessini estreou em programas infantis ainda em 1963, na TV Tupi, onde começou a desenvolver uma técnica muito sua: máscaras de látex com movimento, que lhe permitiam dar vida a personagens completamente diferentes. Foi essa habilidade que chamou a atenção da Globo quando ela montava o elenco do Balão Mágico.

O Fofão foi criado em 1983 — um alienígena atrapalhado de bochechas enormes, nascido no planeta fictício Fofolândia. O personagem não falava no começo. Emitia grunhidos que só a Simony entendia. Aprendeu o português devagar, junto com as crianças que o assistiam. Isso, curiosamente, era parte do charme.

O sucesso foi imediato e avassalador. Foram lançados lancheiras, camisas, shampoos, calçados, revistas em quadrinhos, LPs e até waffles e bombons com sua marca. E então veio o boneco — fabricado pela Mimo, empresa menor do setor, que apostou alto. Resultado: quatro milhões de cópias vendidas. Um absoluto hit de vendas.

Orival Pessini o criador do personagem Fofão

A lenda

Foi aqui que as coisas ficaram interessantes — e assustadoras, dependendo de quem você perguntasse.

A lenda urbana afirmava que o boneco Fofão vinha com um punhal ou faca escondida em seu interior. A teoria mais popular era que o boneco era um objeto satânico. Uma variação ainda mais sombria dizia que ele ganhava vida à noite e atacava seus donos. O pânico foi tão grande que muitos pais queimavam os bonecos ou os abriam para ver o que havia lá dentro.

A verdade é bem mais mundana — e por isso ainda mais irônica. O boneco tinha a cabeça feita de plástico e o corpo de pano. Para que a cabeça grande e pesada se mantivesse firme, a fabricante precisou de uma haste de plástico rígida. Essa haste, longa e pontuda, era a “faca” que a lenda descrevia. O criador da haste, Deusenir Prieto, especialista em Métodos e Processos na fabricação de brinquedos, deu entrevista anos depois confirmando que a intenção era puramente funcional. Mas não adiantou nada: a crítica tomou proporções sobrenaturais.

Fonte: fatosdesconhecidos.com.br

O que a maioria das matérias não conta: alguns acreditam que a lenda foi espalhada por uma empresa concorrente para prejudicar as vendas. Se foi isso, o tiro saiu pela culatra — a polêmica só imortalizou o Fofão. Bonecos originais da Mimo em bom estado chegaram a custar R$ 500,00 em sites de colecionáveis.

Fofão e simony – Reprodução TV Globo

O pedido final

Em 2016, aos 72 anos, Orival Pessini faleceu em decorrência de um câncer no baço. Mas antes de partir, deixou uma instrução que diz muito sobre quem ele era: a pedido do ator, o acervo com todos seus personagens foi incinerado. Entre os mais famosos, como Fofão e Patropi, tudo ficou eternizado apenas com o ator. O motivo era claro: o ator tinha medo de que pessoas fizessem mau uso da imagem do personagem. Seu filho Pedro Pessini confirmou brevemente o ocorrido sem entrar em detalhes.

É um gesto raro no entretenimento — um artista que preferiu o silêncio à perpetuação sem controle. E é exatamente por isso que o novo lançamento da Novabrink levanta uma questão que ninguém está respondendo diretamente: quem autorizou, e em que termos?

O que está chegando (e o que ainda não sabemos)

A Novabrink focou tanto no segmento de colecionismo kidult quanto no mercado de acessórios lifestyle. O Boneco de 35 cm equilibra a estética original dos anos 80 com um visual contemporâneo. Já o Mini Fofão de 15 cm chega no formato de bag charm, tendência forte entre a Geração Z.

A ironia maior de toda essa história é que os bonecos originais dos anos 80 foram destruídos em massa pelos próprios pais — por causa de uma lenda falsa. Os moldes originais foram destruídos pelo criador — por convicção real. E agora, quatro décadas depois, o boneco retorna sem máscara, sem haste misteriosa, sem Orival. Só com a nostalgia e um chaveiro. Fofão sempre soube como sobreviver ao fim.

Mais informações estão no site oficial: https://www.novabrink.com.br