Fatal Frame II, lançado em 2003 originalmente, chama atenção até hoje por sua história bem interessante e macabra. Por isso, para entender melhor o jogo e aproveitar melhor o remake, relembre com a gente a história do game.

Lembrando, obviamente, que se você quer curtir por si só a história do game, volte aqui após terminar o game, para não descobrir nada que atrapalhe sua experiência.

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A história de Fatal Frame II começa com as irmãs Mio & Mayu Amakura visitando uma floresta onde elas costumavam brincar quando crianças. Em breve, esse lugar deixará de ser uma simples floresta e será totalmente inundado devido à construção de uma barragem.

No passado, existia um vilarejo fictício conhecido como a Vila de Todos os Deuses. Nesse lugar vivia um povoado isolado que, a cada certo tempo, sofria com terremotos causados pela proximidade da vila com o Abismo Infernal — um buraco que ligava o mundo humano ao mundo dos mortos. Para manter a paz e a prosperidade daquele local, as pessoas tinham que cumprir rituais envolvendo o sacrifício de gêmeos.

Quatro famílias eram responsáveis por cumprir esses rituais: Tachibana, Kiryu, Osaka e Kurosawa. Havia uma demanda constante de sacrifícios de irmãos gêmeos, algo muito comum no Vilarejo Minakami. Ao longo dos anos, os rituais alternavam entre as famílias. Porém, eles precisavam seguir rigorosamente o protocolo: o sacrifício de gêmeos.

Existia a crença local de que os gêmeos eram uma alma única separada no dia do nascimento. O sacrifício por meio do estrangulamento fazia com que os gêmeos se tornassem um só novamente. Esse estrangulamento gerava a marca da Borboleta Carmesim no pescoço do gêmeo sacrificado. Essa borboleta, que aparecia após o ritual, passava a proteger o vilarejo contra o mal, garantindo alguns anos de paz e prosperidade.

O irmão sobrevivente obtinha o status de remanescente e era tratado quase como uma divindade por todos os moradores. Vale ressaltar pontos específicos do ritual: os sacerdotes acompanhavam os irmãos gêmeos com os rostos totalmente cobertos e batiam um cajado chamado shakujo de forma sincronizada até o fim da cerimônia.

Ao final de cada sessão ritualística, os Mourners — encarregados de pegar os corpos sacrificados e jogá-los na profundidade do abismo — entravam em ação. Eles eram entidades condenadas a viver no subsolo porque, em vida, haviam cometido os crimes mais cruéis contra os habitantes da vila. Por causa do contato direto com o abismo, eram cegos. A lenda local diz que quem tem contato com esse abismo perde a visão, por isso usam uma venda nos olhos.

Além do ritual carmesim, existe outro ritual oculto que envolve sacrifícios ocasionais, caso haja problemas com o ritual tradicional (como a falta de nascimento de gêmeos). Para ganhar tempo, geralmente pegavam uma pessoa de fora do vilarejo, amarravam seu corpo em uma corda retalhada por facas e espadas. Quanto maior o sofrimento dessa pessoa, mais eficaz era o ritual.

Essas pessoas sacrificadas eram chamadas de Kusabi. A vila passou por muitos rituais ao longo dos anos. O primeiro encontrado através de arquivos durante o jogo envolve duas irmãs gêmeas, Akane & Asami, da família Kiryu.

Akane, considerada a mais velha segundo a tradição do vilarejo, recebeu a ordem de sacrificar sua irmã. Na época, a vila passava por terremotos frequentes e os moradores temiam uma calamidade. A família Kiryu precisou acelerar o ritual quando as irmãs ainda eram muito jovens.

As irmãs tinham por volta de onze anos de idade e tinham a convicção de realizar o ritual. Akane, junto com sua irmã, o fez. Como era muito nova e mal tinha força para apertar o pescoço de Asami, o sacerdote ofereceu ajuda. Porém, Akane foi firme na decisão, recusou a ajuda e cumpriu sozinha o sacrifício de sua irmã.

Após o evento, Akane ficou extremamente traumatizada. Teve que lidar diretamente com a dor do luto em prol do ritual, o que mexeu profundamente com seu psicológico. Ela se tornou uma criança depressiva, calada, que perdeu totalmente a alma, restando apenas um vazio profundo em seu subconsciente.

O pai, vendo a filha naquele estado, decidiu criar uma boneca idêntica a Asami para fazer companhia a Akane. No momento em que Akane viu a boneca muito parecida com a irmã, foi como se ela a tivesse de volta. Acabou se apegando demais à boneca. Porém, com o passar dos dias, o pai percebeu que havia algo errado: durante uma noite, deparou-se com a boneca caminhando pelos corredores da casa, possuída por uma entidade maligna.

O pior é que esse espírito sugava aos poucos a alma de Akane. O pai teve um sonho revelando que a boneca precisava ser destruída e jogada no Abismo Infernal. De alguma forma, a boneca sabia das intenções do pai. Akane, que já havia perdido a irmã, sentiu-se na obrigação de manter vivo o único elo que ainda as unia. Pegou partes da boneca e as espalhou por toda a casa, impedindo que o pai a destruísse. Acabou possuída e matou o próprio pai, dando fim à linhagem da família Kiryu.

Anos se passam e agora os responsáveis pelo sacrifício são os irmãos Itsuki e Mutsuki. Nesse novo ciclo, Itsuki mata o irmão e se torna o remanescente. Porém, as coisas não acontecem como previsto: o ritual falha e o sacrifício é em vão.

Essa falha leva a duas possibilidades: realizar o ritual oculto sacrificando um Kusabi para ganhar tempo de paz, ou realizar o ritual carmesim das irmãs Sae e Yae, da família Kurosawa.

O garoto Itsuki, muito amigo das gêmeas, não queria de forma alguma que elas passassem pelo mesmo trauma que ele. Correu para pedir ajuda a um amigo que havia deixado o vilarejo anos antes: Ryozo Munakata, que trabalhava com o folclorista Seijiro Makabe.

Eles vão até o vilarejo a convite de Itsuki. Enquanto Itsuki explica o plano de fuga para Ryozo, Seijiro se aprofunda cada vez mais nas crenças do vilarejo, conhecendo as gêmeas, informando-se sobre os rituais e as famílias envolvidas. Ele percorre todo o vilarejo, estudando o lugar e percebendo a forte presença sobrenatural.

Com um objeto fundamental para essa descoberta — a Câmera Obscura, dada por um amigo chamado Kunihiko Asou, o criador da câmera —, ele vê que há uma presença espiritual muito forte na vila. Ao apontar a câmera para uma rocha em Shimenawa (as cordas que marcam o lugar sagrado), tem uma visão de braços espectrais saindo da pedra.

Enquanto isso, Itsuki, querendo poupar suas amigas do trauma que viveu, organiza a fuga das gêmeas. No momento em que ele planeja tudo, os moradores capturam Seijiro para servir de sacrifício na cerimônia oculta, dando fim à sua vida.

As irmãs Sae e Yae tentam fugir, mas Sae cai em um barranco. Yae segue sozinha com Ryozo, deixando a irmã para trás. Um grupo do vilarejo captura Sae. Vendo que Yae não voltaria, decidem realizar o ritual apenas com ela. Sae é enforcada e lançada no Abismo Infernal.

O ritual fracassou porque não era assim que funcionava. No desespero de não quebrar o ciclo e manter a paz, uma sequência de falhas libera a maldição no vilarejo. Um miasma maligno sai do submundo, trazendo de volta Sae e o Kusabi, ambos possuídos pelo mal. Isso causa desespero nos sacerdotes, que tentam fugir em vão.

O Kusabi sai destruindo literalmente tudo. Os relatos de pessoas que não sobreviveram são inúmeros. Uma mulher, por exemplo, que estava sobre uma ponte, percebeu que o ritual deu errado, pulou e caiu sobre a própria cabeça, quebrando o pescoço. Ela se torna um dos fantasmas mais desconfortáveis de enfrentar, vagando eternamente com o pescoço quebrado. Vale ressaltar que todos os espíritos vagam no local de sua morte.

Outro fantasma extremamente perturbador é o de uma mulher que, no momento em que o ritual falha, se lança do segundo andar da casa, quebra todos os ossos e fica rastejando pelo chão, condenada a reviver eternamente em looping o momento de sua morte.

Não podemos esquecer também de uma mulher que foi arrastada para dentro de um lago por espíritos, afogou-se e retorna como um espírito vingativo que flutua pelo lago, revivendo eternamente essa morte por afogamento.

Agora chegou o momento em que “o filho chora e a mãe não vê”. Preciso falar do pior fantasma do jogo, aquele com a história mais pesada e que proporciona a melhor boss fight: o fantasma da irmã dos gêmeos Itsuki e Mutsuki, Chitose Tachibana. Uma garotinha de oito anos com problemas de visão que, sempre que um estranho se aproximava, corria para se esconder com muito medo.

Justamente no dia em que o ritual falhou, ela não estava próxima de nenhum parente. Quando a maldição foi liberada por todo o vilarejo, escondeu-se dentro de um armário, ficou presa e acabou morrendo lá.

Durante toda a batalha contra ela, ouvimos o choro sofrido da morte dessa criança. Quando seu espírito aparece, se não tirarmos a foto no momento certo, tudo fica escuro e o jogo recria literalmente o momento de sua morte, deixando o jogador em breu total. A Câmera Obscura não surte efeito nessa situação desfavorável, enquanto ouvimos o choro de dor e sofrimento do fantasma.

Como as irmãs Mio & Mayu vão parar no Vilarejo Minakami?

No momento em que as duas estavam pela última vez na floresta onde costumavam passar o tempo juntas, souberam que o local seria inundado para a construção de uma barragem. A irmã mais nova, Mayu, havia lesionado a perna anos antes, quando ainda eram muito novas. Essa queda deixou uma sequela, fazendo com que ela tivesse dificuldades para andar.

Enquanto Mio está sentada à beira do rio relembrando esse acontecimento, Mayu se distancia floresta adentro, perseguindo uma borboleta de cor carmesim. As duas passam por uma estátua de Jizo, cruzam um portal que as joga em outra dimensão, onde tudo muda rapidamente do dia para a noite.

Em questão de segundos, a irmã começa a andar mais rápido, com sua imagem se transparecendo com a de uma mulher usando um kimono branco, de aparência muito parecida com a dela. Quando Mio finalmente alcança a irmã, ela já não está mais lá. Mais à frente, encontra a mulher vestida com o kimono branco chorando muito, pedindo desculpas, antes de desaparecer.

Poucos metros adiante, encontra Mayu olhando fixamente para o vilarejo abandonado. De repente, ela diz que aquela é a vila perdida.

Agora que chegaram no vilarejo, tudo de ruim começa a acontecer. As irmãs precisam encontrar uma forma de sair desse lugar e voltar para casa. Seguindo por esse caminho sem volta, chegam até a casa da família Osaka e se deparam com a silhueta de uma pessoa na janela.

Nesse momento acontece uma das cenas mais clássicas e marcantes da história dos jogos de terror: as irmãs Mio e Mayu andando juntas quando, de repente, Mio sente uma mão em seu ombro. Ao encostar nessa mão e chamar Mayu, percebe que era a mão de um espírito, pois sua irmã passa em frente chamando-a para entrar na casa da família Osaka.

Dentro da casa, encontram um recorte de jornal relatando o desaparecimento de um homem de 26 anos que fazia um estudo sobre o impacto ambiental da construção de uma represa na região. A matéria menciona que ele estava desaparecido há quatro dias e, após dez dias, as buscas foram encerradas.

Mio percebe que a casa já está abandonada há anos. Ao olhar novamente para a irmã, vê que Mayu está assustada. Ao encostar no braço dela, tem a mesma visão: flashes de uma mulher de kimono branco com um sorriso diabólico, além de um homem estrangulando uma mulher sentindo prazer no ato.

Elas não fazem ideia do que está acontecendo, mas decidem continuar a exploração. No meio dela, encontram a Câmera Obscura, a mesma usada por Seijiro Makabe anos antes.

A partir do momento em que Mio toca na câmera, torna-se possível ver o sobrenatural e flashes do que aconteceu no passado. Passam a ver os fantasmas das pessoas que morreram no vilarejo amaldiçoado.

Ao abrir uma porta, veem um fantasma — o mesmo da mulher vista quando chegaram ao vilarejo. Mio percebe que a câmera, além de ver os espíritos, também pode causar dano nessas aberrações.

(Na cultura japonesa, a relação entre máquinas fotográficas e fantasmas é um fenômeno conhecido como Shinrei Shashin — fotografias de espíritos. É uma tradição que mistura tecnologia com folclore tradicional japonês, onde as câmeras são o único instrumento capaz de capturar o que os olhos humanos não conseguem ver.)

Esse fenômeno ganhou muita força nos anos 80 com revistas e programas de TV japoneses dedicados a exibir fotos de locais abandonados, cemitérios e locais de acidentes fatais — ambientes ideais para aparições de espíritos na vida real.

Daqui para frente, o jogo se desenrola com Mio indo atrás de sua irmã por todo o vilarejo, procurando pistas, exorcizando fantasmas, enquanto Mayu demonstra claros sinais de possessão pelos espíritos que vagam pela vila.

O remake traz os finais da versão original de PlayStation 2 e também do remake que saiu para o Nintendo Wii. Mas também foram adicionados novos finais nesse novo remake.