Arte de Rachid Lotf

Confesso a vocês que nos últimos tempos estou mais reflexivo que de costume. E como sempre, os videogames estão no meio desses devaneios.

Certo dia me peguei relembrando minha infância, tempo esse que sempre nos referimos como “época mais simples”. Mas será que era mesmo? Então decidi listar algumas coisas que observei sobre a nossa forma de consumir videogames no passado e tentar descobrir se realmente era tudo um mar de rosas ou se na verdade nossa memória afetiva mascarou todos os perrengues. Vem comigo!

Dificuldades tecnológicas
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Se hoje temos a possibilidade de assistir o que quisermos, onde quisermos e a qualquer hora, em tempos passados a coisa era bem diferente. O momento econômico que vivíamos não permitia que tivéssemos certos “luxos”, e ter uma televisão em casa já era algo para ficarmos felizes. Raramente se via uma residência em que havia uma TV na sala e uma em outro cômodo. Morava aí um dos problemas para nós, que queríamos apenas jogar nosso Double Dragon.

Conseguir um tempo para poder jogar também era uma odisseia. Nossos pais viam novelas, jornais e outros programas, e cabia a nós as migalhas de horários vazios nos quais a televisão estava livre. A cada dois anos, o mês de outubro nos trazia um bônus game: época de eleições, nossos pais desligavam a TV enquanto ia ao ar o horário político, e era ai que fazíamos a festa! Cada minuto era precioso quando se queria curtir uma jogatina!

Algumas questões tecnológicas também nos assombravam. Existiam televisões que ainda eram em preto e branco, e outras até eram coloridas, mas não conseguiam compatibilizar o sistema de cores do console. Sendo assim, lá estávamos nós, jogando Contra com a tela sem uma gota de cor. E o que dizer sobre aquelas caixinhas que conectávamos atrás da TV, para termos a imagem? Lembro de ter que cortar o fio e fazer várias gambiarras pra poder liga-las e jogar alguma coisa. A luta era grande…

Uma imagem que traz dor de cabeça. Fonte: Google Imagens
Escassez de informações

Em tempos de informações instantâneas, um jogo novo é lançado e algumas horas depois já temos na internet várias análises e gameplays sobre ele. Você consegue saber o que lhe espera naquele game antes de jogar, e até mesmo decide se vai comprar ou não vendo as informações disponíveis. Bem simples né? Já nos anos 90, a coisa era bem diferente.

Não havia internet, e as principais informações que recebíamos vinham das revistas de videogame ou do boca-a-boca com nossos amigos. Você esperava ansioso aquela Ação Games que iria sair, pra ver se encontraria alguma dica sobre um jogo que você possuía, e para saber o que estava prestes a ser lançado no Japão e nos Estados Unidos. Clebão que o diga, né?

As tão amadas revistas de videogames! Fonte: Acervo Pessoal

Escolher um jogo para alugar era algo complicado, em alguns casos, pela falta de informações. Quantas vezes fui à uma locadora, e aluguei um jogo sem saber do que se tratava, sendo atraído somente pela caixinha dele. Era uma roleta russa: chegar em casa, espetar o cartucho e ligar o console, torcendo por jogo que alugamos ser legal. Conheci muitos jogos bons desse jeito, mas também joguei cada tranqueira…mas nem queria saber, mesmo sendo ruim jogava ao máximo antes de entregar o jogo na segunda-feira!

Dificuldade econômica

Lembro-me como se fosse hoje: ganhei meu primeiro cartucho de Super Nintendo quase um ano depois de ter ganho o console que vinha com Super Mario World. E acredito que essa foi a realidade de muita gente. Se pegarmos os valores de salário da época, um jogo novo custava por volta de quase dois salários!

Não que hoje os jogos sejam baratos, mas imaginem o contexto econômico da época, as dificuldades enfrentadas por nossos pais e pensem o quão difícil era ter jogos novos. Daí o fato de recebermos um cartucho novo só no natal, e na melhor das hipóteses ganhar um também no aniversário…

Pra nossa sorte, haviam as locadoras. Podíamos alugar um jogo a um preço bem modesto e desfrutar de uma variedade de games que dificilmente teríamos condições de comprar. Tudo isso nos mostra que, em tempos de restrições financeiras, os poucos jogos que tínhamos acesso nos faziam valorizar cada cartucho que recebíamos. Hoje em dia temos emuladores com milhares de jogos, contas na Steam, Nintendo E-shop, PSN e Xbox Live com inúmeras listas de jogos que sequer jogamos, e por vezes não nos damos conta de que em tempos não tão distantes, essa facilidade nem era sonhada.

A eterna dúvida sobre qual jogo alugar. Fonte: Google Imagens
E aí? Os tempos eram realmente mais simples?

Ainda existem inúmeros fatores que poderíamos listar, mas que não entrarei no mérito. Além disso, tentar analisar essa questão deixando de lado nossa memória afetiva é um trabalho um tanto complicado, eu diria. Mas, nem tudo são fase de bônus nessa vida né? Portanto, penso que cada época possui suas benesses e suas dificuldades. Cada período que vivemos nos traz desafios novos e aprendizados únicos, entretanto, concluo que nossas sagas para jogar videogames em nossa infância não eram nada simples como nossa memória tenta nos fazer acreditar.

Confesso que sinto falta sim da simplicidade daqueles tempos. A velocidade de comunicação que a internet trouxe é muito boa, mas ao mesmo tempo nos mantem reféns a um mundo no qual nos aproximamos muito de quem está longe e nos distanciamos de quem está perto. E naquela época sem internet, conseguíamos aproveitar mais cada instante e momento que vivíamos. Porém, valorizo muito mais toda a facilidade que tenho hoje para consumir os jogos que amo justamente por ter passado por esse período de restrições.

E você? Acha que naquele tempo as coisas eram mais fáceis, ou pensa que tudo era realmente complicado e tenta aproveitar ao máximo as facilidades da vida atual? Conta pra gente nos comentários! E não se esqueça: em breve estaremos de volta, trazendo um texto novo sobre videogame velho! Até mais!