Levando o jogador diretamente ao fim dos anos 80, Slipstream captura a estética e o formato de alguns grandes jogos daquela época. Tem um estilo visual que mistura clássicos como Rad Mobile, o arcade Super Monaco GP e tende a uma estrutura parecida com OutRun. Apelando para a nostalgia de quem viveu esse período de ouro, Slipstream agrada com comandos precisos e filtros gráficos que completam clima de arcade dos anos 80 ao qual remete.

Slipstream – Tela de Pausa

Contando com três modos de jogo: Arcade, Grand Prix e Quick Race, o game permite que você faça um tour, dispute provas estilo circuito ou ainda corra contra o tempo para registrar em um placar de tempo quem são os pilotos mais rápidos do mundo. O modo Arcade leva você a uma corrida de progressão no melhor estilo RadMobile ou aos acostumados a consoles, OutRun.

Nesse modo, senti falta de um mapa de referência para mostrar a rota percorrida, isso ajudaria a saber por onde ainda não passamos e com isso melhorar o fator replay, facilitando jogar outras vezes em rotas inéditas. Os estágios são bastante criativos, encaixando bem com a proposta do game, mas podiam ser um pouco maiores, demorando mais a passar e, quem sabe, com algumas inclinações de tela dando um toque mais RadMobile.

Talvez uma segunda versão do game adicione esse recurso, mas não é nada que tire o brilho de se sentir novamente (ou pela primeira vez) em um belo arcade da época com um visual que tem o feeling bem SEGA anos 80. Nesse sentido, o jogo vai agradar bastante o público alvo.

OutRun – arcade lançado originalmente em 1986.

O modo Grand Prix leva o jogador a circuitos baseados nos temas que você encontra durante o tour, com grid de largada e corridas com número de voltas, mas não imagine algo como Top Gear, o jogo mantém a atmosfera arcade. Dito isso, entenda que a experiência aqui muito é mais fliperama que console doméstico, o que destaca positivamente o jogo porque não é muito comum achar algo como ele mesmo em emuladores.

Por fim, o Quick Race vai permitir escolher um dos 20 circuitos do jogo para uma corrida contra a máquina e, especialmente, para marcar tempo. A graça aqui é terminar o mais depressa possível para ter seu nome no quadro de líderes, que seleciona sua posição pelo seu tempo em relação aos amigos e também ao mundo, estimulando a competitividade.

 

A jogabilidade é bastante original e reúne duas mecânicas principais: o vácuo dos carros adversários (daí o nome Sliptream, que é a palavra em inglês para o espaço logo atrás de um objeto em movimento) e o Drift que, na realidade, tem muito mais influência que o vácuo.

Basicamente, se você não faz curvas em Drift não vai passar ninguém, já o vácuo você não domina muito rapidamente e depende de certa aleatoriedade dos adversários estarem numa posição favorável na pista, e conseguindo entrar na posição certa você ganhará um boost na velocidade que dura alguns instantes, mas em geral isso não é decisivo para sua vitória, ou no mínimo é muito menos importante do que dominar o drift.

Nesse sentido, as coisas te remetem a Initial D. Então, o que temos aqui? Um arcade com feeling de fliperama da Sega nos anos 80, jogabilidade que faz referência a Initial D e modos de jogo que remetem OutRun, RadMobile, com opção de circuitos. Particularmente, sempre curti muito esse estilo quando criança e gostei bastante do resultado dessa mistura nesse belo indie nacional.

Initial D Stage Zero (2017) – Máquinas de Arcade

Vale ressaltar que a curva de aprendizado é curta, você realmente domina o jogo rápido, o tutorial em três simples passos leva menos de 2 minutos e vale a pena ser jogado, pois dá todas as ferramentas para enfrentar o desafio.

O jogo também oferece algumas opções de filtros gráficos, como NTSC, CRT e PIXEL, que simulam efeitos de telas antigas ou, no caso desse último, deixa a resolução e os objetos daquele jeito que você não via desde meados dos anos 80, é bem nostálgico.

O game é plenamente compatível com os controles de Xbox 360 e One, mas não permite personalizar, ponto que pode gerar reclamação entre os jogadores. Outro detalhe é que, apesar de ser um jogo brasileiro, não existe opção para o português, é claro que não faz falta, não tem nenhuma história para contar aqui, mas seria legal visualizar as telas em nosso idioma.

Vale a observação que Slipstream é um indie desenvolvido por um brasileiro chamado Sandro Luiz de Paula, de Belo Horizonte – MG. É um daqueles jogos que vão para o mercado na raça de quem luta pelo que acredita e torna esse mercado tão incrível.

Disponível na Steam, o valor é mais do que justo pelo conteúdo e recomendo para qualquer um que queira se divertir à moda antiga, contando com um conteúdo original que você não vai encontrar facilmente em outros produtos, atuais ou não. Confira abaixo o trailer de Slipstream:

CURIOSIDADES E NOTAS DO AUTOR DO GAME

“Slipstream foi quase inteiramente criado (i.e. todos os gráficos e todo o código) por um desenvolvedor solo, Sandro Luiz de Paula, também conhecido como ansdor, de Belo Horizonte. A trilha sonora e direção de som foram feitos pelo parceiro americano Stefan Moser, de Charleston, South Carolina.”

“Slipstream é, assumidamente, uma carta de amor para a era clássica da SEGA. Além da inspiração óbvia em OutRun/OutRunners, há inúmeras referências à franquia Sonic the Hedgehog espalhadas por Slipstream, da tela-título aos nomes de mais ou menos metade das pistas. Sonic the Hedgehog 2 é o jogo favorito do desenvolvedor.”

“Outras inspirações/referências diretas incluem a música e estética vaporwave e synthwave (também conhecida como retrowave), o anime Initial D e o programa de TV The Joy of Painting, com Bob Ross.”

“Algumas pistas são inspiradas por lugares reais: Monument Valley (EUA), Highgate Cemetery (Inglaterra), Akagiyama (Japão), Valley of the Kings (Egito), Parthenon (Grécia) e, mais importante, Villa Rica, baseada na cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais.”

“Slipstream foi desenvolvido exclusivamente em sistemas Linux (Ubuntu e Arch Linux), usando ferramentas de software livre como Krita, Blender e GIMP para os gráficos e Intellij IDEA CE para a programação. Nenhum sprite* no jogo foi produzido no Windows ou qualquer outro software proprietário, como Photoshop. Isso não é, porém, uma afirmação “política”. O desenvolvedor apenas prefere Linux e software livre. (*Não se aplica à trilha sonora)”