Imagine que estamos na década de 90, o Super Nintendo com o grande Super Mario World e o Mega Drive com o veloz Sonic – The Hedgehog. Não era raro ter um desses consoles de 16 bit, com seu respectivo game de sucesso, em casa.

Para aqueles que não tinham a possibilidade de comprar um console, havia outras alternativas. Normalmente, esses gamers jogavam nas nostálgicas locadoras, na casa de um amigo que tinha o console ou usavam os arcades no boteco da esquina.

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Passávamos horas jogando, anotando passwords, comprando revistas para descobrir como se passava de alguma fase, derrotava um chefe ou onde encontrar os “enigmas” do jogo. Contudo, na década de 90 não era popular o termo “gamer”, pois jogávamos por diversão e os campeonatos de videogames e arcades não eram tão populares

O termo “gamer” ou “gameplayer” era conhecido e usado por jogadores de Role-Playing Games (RPG), um gênero no qual os jogadores assumem papéis de personagens fictícios e criam narrativas colaborativamente.

A febre dos arcades nos anos 90

Mas, afinal de contas, o que é ser um gamer nos dia de hoje? Vamos refletir um pouco. Hoje em dia, um jogador com seus 18 anos tende a ganhar um PlayStation 4 Pro de aniversário, 1TB e PES 2019.

Esse mesmo jogador, provavelmente, teve como primeiro console o PlayStation 2. Embora tenha vivido grandes momentos com o velho console, não chegou a escrever nenhuma enciclopédia em torno de suas conquistas. Quando muito, gravou um vídeo no Youtube, pois há pouco o que recordar dado à história do console.

A pessoa narrada acima pode ser considerado gamer? Se considerarmos os critérios de seleção impostos por pessoas mais saudosistas, irão dizer que não. Mas, por quê?

Segundo a comunidade mais saudosista, não saber que o herói de The Legend of Zelda se chama Link ou que o Alex Kidd foi o primeiro mascote da Sega é falha gravíssima. Você não é um verdadeiro gamer se não souber esmiuçar, detalhe por detalhe, cada uma das fases da série Castlevania, Metroid, Final Fantasy, enfim. Além disso, ser gamer significa ter um gênero de jogo que combine com seu perfil.

O conceito da vez é ser ‘hardcore’, pois ser ‘casual’ é sinônimo de fracasso. Mas espera aí, achei que estávamos falando de jogar videogame para se divertir, o que eu deixei de prestar a atenção neste trajeto?

Zelda e Link em The Legend of Zelda

Gamer é, atualmente e simplesmente, o nome dado para os jogadores de videogame, profissionais ou não. Com a onda crescente de games e consoles e com o grande avanço tecnológico, o número de gamers tem crescido por todo o mundo, o que tem tornado o mercado dos games muito atrativo. Hoje em dia, existem até mesmo jogos gratuitos, os quais a empresa desenvolvedora lucra através de anúncios ou até mesmo na venda de complementos para o jogo.

O mundo dos games tem lucrado milhões de dólares anualmente, muito se deve às comunidades virtuais onde, frequentemente, os jogadores marcam encontros, em salas online ou pessoalmente, para jogar em locais especializados, como arenas que sediam campeonatos.

Muitas vezes, para um gamer, o fato de possuir os melhores itens em jogo com alta dificuldade, indica que o jogador tem um status maior dentro da comunidade de gamers. Isso faz com que as empresas explorem, ao máximo, a interatividade e atratividade dos jogos, criando assim um verdadeiro universo para os gamers.

Já para os jogadores profissionais, passar a maior parte do tempo jogando é profissão. Eles podem ser apostadores ou contratados, por empresas desenvolvedores, para testarem os novos jogos, antes que eles sejam lançados no mercado.

Então, voltando a história dos videogames, o princípio de tudo eram os jogos casuais, já que não havia nenhum roteiro muito explicativo. Mas, aquelas pessoas que viraram noites e noites jogando Super Mario World em um Super Nintendo, são casuais ou hardcore?

A ideia de rotular o jogador é do mercado, que busca classificar o público alvo a fim de atendê-lo de forma mais pessoal e eficiente. Ele gosta de MMA e assiste corridas automobilística aos domingos? Temos o jogo certo para esta pessoa! Prefere um pouco de aventura, um lenço no pescoço e alguns itens arqueológicos? Espera aí,  e… está pronto!

Sim, todo esse universo de títulos existe apenas para abastecer cada um dos nichos de mercado, criados pelos nossos comportamentos distintos. Mas, e quando essa classificação deixa de ser mercadológica e passa a ser, quase como, uma religião nas redes sociais? Como lidar nestas situações?

Quem está beirando ou passou a casa dos 30 anos, como eu, viveu a era de ouro dos Arcades no Brasil. Vivenciamos a chegada de Street Fighter 2, a chuva de beat’em ups da Capcom e Konami, como Final Fight e Double Dragon, dentre outros, igualmente, marcantes.

Se traçarmos o perfil padrão do frequentador assíduo das casas de jogos/locadoras, vamos chegar na figura do homem de meia idade que mal sabe pronunciar os golpes que executa com perfeição.

Um arcade do jogo Street Fighter 2

Por exemplo, de onde vieram as expressões “Alex Full” e “Tiger Robocop“? As revistas da época já traziam os golpes com seus nomes originais e grafias corretas (na maioria das vezes). Na verdade, não nos importávamos muito, o foco estava em se divertir. Isso faria dos nossos jogadores meros casuais? Logo eles, que alimentaram tantas lendas nas rodas de amigos no recreio da escola? Não é justo.

Pense comigo: sabe aquele PS4 citado no terceiro parágrafo do texto, produzido no Brasil com um preço competitivo, comparado ao mercado paralelo? Pois é, ele só existe porque se formou uma boa base de consumidores no país. Adivinha quem compõe boa parte disso? Se você pensou nos “não-gamers”, vulgo jogadores casuais, acertou em cheio!

As empresas estão cada vez mais interessadas no nosso mercado e na forma como o jogador brasileiro se comporta. Só nos consoles? Com certeza, não. Um outro estudo revelou que até 2019 o mercado de games para smartphoes/tablets movimentará a bagatela de US$13.3 bilhões, aproximadamente 35 bilhões de reais.

Contudo, hostilizar o jogador casual é jogar contra a própria meta. Se mais pessoas compram, os preços caem. Nos anos 90, especificamente na era dos 16 bit, era relativamente difícil conseguir alguns jogos mais raros, principalmente se você não tivesse a opção de importar.

Hoje, a situação é outra e a internet ajuda muito neste quesito, mas não é responsável por si só . Edições de colecionador, itens raros, eventos especializados, publicações do gênero, novos empregos e acima de tudo, novos games e gamers.

Mas falando dos tipos de gamers. Vamos conhecer um pouco sobre as nomenclaturas mais populares:

Gamer casual: prefere games projetados com uma jogabilidade fácil (como Tetris, Snake, etc.) e, muitas vezes, não dispende muitas horas do dia para jogatina.

Hardcore gamer: Uma pessoa que passa a maior parte do seu tempo de lazer jogando, muitas vezes no nível difícil ou muito difícil. Esses tipos de gamers tendem à proficiência. Há muitos subtipos de Hardcore gamers baseados no estilo do jogo, preferência de jogabilidade, plataforma de hardware, e outras.

Retrogamer: Tem preferência por consoles e jogos mais antigos. Os Retrogamers são, em parte, responsáveis pela popularidade da emulação de videogames. Alguns reúnem velhos jogos e protótipos, ou estão no negócio de polir velhos jogos. 

Import gamer: Gosta de jogar ou colecionar jogos produzidos internacionalmente. As importações mais comuns são do Japão, embora alguns gamers europeus e japoneses adquirem jogos da América Norte. Dependendo da plataforma, esses gamers devem usar dispositivos como modchips, discos de boot, e/ou Gamesharks para destravar a proteção regional do software, embora alguns prefiram comprar consoles importados. Um número considerável desses gamers importam jogos que, geralmente, não são lançados em seus respectivos países.

Cyber atleta: Um gamer profissional (muitas vezes abreviado de “pro gamers” ou somente “pro”) que joga por dinheiro. O termo esportes eletrônicos é usado para descrever a jogatina de videogames como um esporte profissional. 

Gamer regular: O gamer regular é um gamer “normal”, intermediário . O gamer regular passa aproximadamente 11 horas por semana jogando, e têm o interesse no que é mostrado na mídia (FPS, esportes, rpg, jogos de ação, etc.)

Gamer Hacker: É um jogador que burla as regras dos jogos online, fazendo uso de softwares de terceiros para alterar certas características do jogo, como passar de fase mais rápido e obter mais vidas. O Hacker é considerado o pior tipo de gamer, o qual é sempre insultado por não seguir as regras, sendo banido de alguns jogos online.

Existem, atualmente, várias feiras e eventos para reunir os gamers do mundo todo, onde são expostos materiais de jogos, como atualizações e lançamentos. A maior feira do mundo atualmente é a E3 (Electronic Entertainment Expo), a qual reúne expositores e gamers do mundo todo. Aqui no Brasil temos a BGS (Brasil Game Show), que ocorre sempre no mês de outubro, na cidade de São Paulo.

Electronic Entertainment Expo

Seja por diversão ou por profissão, os gamers estão crescendo a todo o vapor. Caso você queira experimentar algum game não perca tempo, eles estão disponíveis nas mais diversas plataformas, podendo até ser gratuitos. Se em algum momento da vida for essencialmente determinante classificar um cidadão como gamer ou não, espero que o critério seja mais razoável que o atual.

Algo como “Querer se divertir” ou “Jogo quando posso”. Em tempos de tanta intolerância e segregação, que pelo menos com um joystick (ou tablet, smartphone, mouse, etc.) nas mãos, estejamos todos falando a mesma língua.