__ Gol Gts ou Gti? Perguntou o Sapatudo.

Ricardo tampou com a mão o letreiro do carro para que eu não visse.

__ Gol Gti, respondi.

Ricardo tirou a mão do letreiro e era o “Gol Gts”.

Essa era uma brincadeira que fazíamos no início dos anos 90 para testar o conhecimento da molecada, para ver quem conhecia os carros, e eu por sinal não conhecia nada.

Sempre nos encontrávamos em frente à “Geração Games” que foi a locadora pioneira da cidade de Apucarana no Paraná. Quem descobriu esta locadora foi minha mãe. Certo dia ela me disse:

__ Nós vamos conhecer a “Geração Games” e vamos alugar “cartuchos” de videogame.

Ilustração de Elton Silva

Nesta época eu nem sabia direito o que seria um “cartucho” de videogame, estava acostumado a ir em locadoras de vídeo alugar “fitas”. Então, eu e minha mãe atravessamos a rua para ir à locadora, que era em frente de casa, na Rua Renê Camargo de Azambuja.

O local era uma casa que nos anos 80 foi reformada e transformada em salas comerciais, batizada de “Shopping Apucarana”. E na sala de número 5 ficava a “Geração Games”.

“Shopping Apucarana”, galeria comercial onde ficava a “Geração Games”

Nós fizemos o cadastro e meu número era 186. Os donos da locadora eram de São Paulo. Era uma mulher loira conhecida como Amábile, o marido, a filha Rebeca e mais o filho chamado Sidney, que sempre usava o boné para trás e aparelho nos dentes. Tinha também o Eduardo, um funcionário que usava o cabelo em forma de tigela.

A fachada da locadora foi feita de forma artesanal pelos donos, com isopor e uma pintura com tinta guache. Logo na entrada, estava parafusada na parede uma prateleira com os jogos de NES (que eram em maioria na locadora). Havia um pequeno banheiro aos fundos da locadora e ao lado da entrada, o balcão de atendimento, que à sua frente ficavam dois televisores de tubo ligados, onde os clientes pagavam para jogar por hora.

A dona Amábile perguntou qual era o meu videogame e eu disse que era o “Micro Genius”. Daí ela mostrou os cartuchos de 72 pinos, que eram compatíveis, e os de 60 pinos, que precisavam usar o adaptador. Nós alugamos “Yo Noid” e “Double Dragon”.

JOGOS DIFÍCEIS

Cartucho do jogo “Yo Noid” da Geração Games

Quando comecei a jogar “Yo Noid”, minha mãe achou um jogo simpático com aquele homem vestido de coelho pulando obstáculos, aparentemente um jogo inocente e fácil. Grande engano.

Eu não conseguia passar da primeira fase, e depois, na fase do jogo de cartas, na qual tinha que comer várias pizzas para ganhar, morria sempre até entender que para passar tinha que usar estratégia e matemática. O outro jogo que alugamos, “Double Dragon”, era mais tranquilo. Só descer porrada nos inimigos.

Na sequência, fui alugando outros jogos como “The Simpsons: Bart Vs The Space Mutants”… bastante difícil. Me lembro que deixava o jogo pausado e ia para a aula de inglês e, quando voltava, continuava a jogar. O “Battletoads”, um jogo que me deixou traumatizado, principalmente na fase da navinha. Eu perdi a conta de quantas vezes atirei o controle no chão. Também conheci os jogos do “Ninja Gaiden”, que também eram muito difíceis.

RIVALIDADE COM O PRIMO

Fachada da “Geração Games”, locadora que iniciou as atividades em 1991

Eu sempre encontrava meus amigos na “Geração Games” alugando jogos de Nintendinho. Mas naquela época, a garotada costumava falar o nome do videogame que eles tinham. “Turbo Game”, “Phantom System” e “Dynavision”, que era o videogame do meu primo Jean Francisco, que falava que era “melhor” do que o meu. Na realidade eram modelos diferentes, mas que usavam o mesmo sistema.

Meu primo Jean sempre ia em casa para jogarmos “As Tartarugas Ninja 2”. Quando ele perdia, dizia que não estava acostumado com o “controle” do Micro Genius e que o “controle” do videogame dele (Dynavision) era melhor. Meu primo sempre desmerecia meus videogames dizendo sempre que os dele eram “melhores”. Nos jogos cooperativos de “Beat’n up”, nos quais jogávamos de 2, nos dávamos bem e jogávamos até terminar.

LANÇAMENTO DE GAMES E AVIÃO DE ULISSES

Certo dia reunimos a molecada. Ricardo, Jean, Sapatudo, Ariomar Jr e eu fomos dar um rolê de bicicleta pela cidade. Neste dia, estávamos na expectativa de alugar o lançamento “Tartarugas Ninja 3”. Entrei na fila de reserva e no dia que aluguei quando cheguei em casa estava passando o “Plantão da Globo” no qual dizia que o avião de Ulisses Guimarães havia desaparecido no mar. Não consegui zerar o jogo da primeira vez e como os jogos lançamento eram mais caros, minha mãe não tinha deixado eu alugar de novo.

Então eu juntei o dinheiro do troco do pão e fui na “Geração Games”, aluguei o “Tartarugas 3” e outro jogo lançamento que eu gostava muito, o “Mario 3”. Depois que eu joguei e devolvi os jogos na locadora fiquei com o comprovante da locação (o bloquinho onde continha todos os dados da locação bem como o preço). Estava com medo da minha mãe descobrir que eu tinha alugado esses cartuchos sem pedir para ela e escondi este comprovante dentro de um livro.

Os anos se passaram e em 2015 por obra do destino um amigo tinha pedido um livro emprestado e quando abriu encontrou este recibo da locadora guardado por mais de 20 anos e conservadíssimo ( este recibo da locadora estará presente no livro “Definitivo Master System” da WarpZone.)

FÉRIAS DA PRIMA ANDRESSA

Minha prima Andressa sempre passava as férias em casa e frequentávamos a “Geração Games”

Minha prima Andressa veio de Curitiba passar as férias em casa e, como não poderia deixar de ser, jogamos videogame. Tinha um jogo japonês bem simples que era o desenho de uma garota e você tinha que tirar toda a sua roupa até ela ficar nua. Eu nunca consegui tirar toda a roupa. Jogávamos “Circus Charlie”, “Arkanoid”, “Galaxians” dentre outros títulos do meu cartucho de 210 jogos.

Fomos até a “Geração Games” e tinha dois jogos que a garotada mais jogava por hora que era “Street Fighter 2”, do Super Nintendo, e “Sonic” do Mega Drive. Minha prima gostava de jogar o Sonic e meus olhos brilhavam vendo a garotada jogar “Street Fighter 2”, que era o lançamento do Super Nintendo, a grande novidade com seus gráficos lindos. O dono da locadora ofereceu o Super Nintendo para o meu pai comprar, mas o preço era bem elevado e ele dizia: __ “Mais pra frente quando cair mais o preço.”

CAMPEONATO DE GAMES

Usamos o cartucho de 210 jogos no campeonato de games

Nesta época meus pais estavam fazendo negócio com uma casa e sempre estávamos conversando com a proprietária, que se chamava Sônia e seus filhos o Lelo e o Caco, este ultimo acabou se tornando meu amigo e ele gostava de jogos no estilo “Tetris” e jogos que envolviam raciocínio e matemática. O Caco era um garoto bem estilo “Anos 90”, usava calça jeans desbotada, cabelo loiro e longo que mantinha amarrado e usava camiseta branca com estampas noventistas.

Ele teve a ideia de fazermos um campeonato de videogame em casa. Quem vencesse ganharia uma quantia em dinheiro e outros prêmios para segundo e terceiro lugar.O patrocinador foi meu próprio pai que pagaria a quantia para quem ganhasse. Reunimos a molecada.

Era eu, o Caco, o Juliano Sapatudo, Ricardo (que minha avó chamava de Fofão pelas suas bochechas) e o Jean. O critério era por pontuação nos jogos. A minha prima Andressa anotaria a pontuação de cada um e no final somaria. Quem tivesse mais pontos seria o campeão. Selecionamos alguns jogos da minha fita de 210 jogos. Eram Super Mario, Galaxians, Arkanoid, Tetris, Excite Bike, Paper Boy, dentre outros.

Começou com o Ricardo, que era o jogador com menos habilidades nos jogos, depois veio o Jean que foi razoavelmente bem nas pontuações nos jogos de plataforma. O Sapatudo também conquistou uma boa pontuação. O Caco foi muito bem na pontuação dos jogos de raciocínio e não muito bem nos jogos de plataforma e esportes.

Na minha vez tive toda uma torcida, Ricardo e Sapatudo vibravam por mim, e eu ficava atento nas anotações da minha prima para ela não favorecer o Caco, pois ela havia me dito que estava interessada nele. Nos jogos de raciocínio não fui muito bem, pois não era meu ponto forte. Agora no Galaxians e, principalmente, no jogo do Mario, a molecada foi ao delírio. Era um jogo que eu estava super acostumado, jogava todos os dias, tinha muita habilidade e rapidez. A molecada falava que eu era “viciado”.

Joguei bem o jogo do Mario, a cada fase que passava o Ricardo me parabenizava. Joguei fase por fase sem pular nenhuma, pois a intenção era marcar muitos pontos. Cheguei até o estágio 7 e não consegui zerar o jogo. O grande momento da contagem chegou. Utilizando uma calculadora, a minha prima chegou à soma do terceiro lugar que foi o Sapatudo. Ele ganhou uma caixa de bombons e ficou todo feliz. O segundo lugar ficou com o “Caco” e ele ganhou 3 locações da Geração Games patrocinado pelo meu pai.

E o primeiro lugar ficou comigo. Eu detonei na pontuação, meu pai me abraçou e me parabenizou, ele me deu uma quantia em Cruzeiros que era o dinheiro da época. E minha prima – adivinhem – acabou “ficando” com o Caco no final da história. Eles pegaram um cineminha no “Cine Teatro Apucarana” e foram caminhando até a frente da casa dele onde o beijo cinematográfico aconteceu com direito a enrosco dos aparelhos um no outro (já que os dois usavam aparelho dental).

Fico por aqui com mais “Memórias de um Play Game” e no próximo texto teremos a continuação da história da Geração Games, com relatos verídicos emocionantes com clientes da locadora e revelações de pessoas que viveram aquela época. Vale muito a pena conferir!!