O desenvolvimento de Jogos Digitais é um processo que pode envolver diversas áreas que devem trabalhar harmonicamente afim de cumprir o objetivo, que é a concepção do game.

Dentre essas áreas, o Game Design é talvez a mais desconhecida, porém de fundamental importância para o balanceamento do projeto de jogo e experiência do usuário. Aqui, falaremos sobre os conceitos e atribuições do Game Designer, bem como seus principais desafios, no desenvolvimento de jogos digitais.

Para enriquecer ainda mais este texto, também entrevistamos um dos mais conhecidos e renomados especialistas em Game Design no país, Fabiano Naspolini de Oliveira, do Canal Fábrica de Jogos que tem mais de 15 jogos em seu portfólio.

O Game Design (Design de Jogos/Games), ao contrário do que muitos consideram, não tem relação com as artes dos jogos digitais, ele trata-se de um processo que busca idealizar, planejar e validar um produto jogo e promover a melhor e mais interessante experiência ao jogador. Para isso, são tomadas decisões relacionadas ao escopo em geral, como mecânicas, enredo, estética e tecnologias associadas.

Uma vez que esta é uma área que envolve diversas outras, um bom Game Designer deve sempre conciliar e analisar criticamente teoria e prática, buscando entender diferentes temas (e.g. computação, psicologia, arquitetura, áudio, negócios, marketing) dentro e fora do contexto de jogos.

Apesar de existirem diversas faculdades ligadas ao Desenvolvimento de Games e, algumas mais diretamente relacionadas ao Game Design, é interessante que o aspirante a essa área busque também aperfeiçoamento pessoal constante. Isso aumentará a experiência, que muitas vezes está refletida no portfólio pessoal.

Um Game Designer é fundamental para uma equipe de desenvolvimento de jogos digitais. Caso não existir um especialista, é interessante que alguém sempre assuma esse papel para produzir um jogo balanceado e agradável nos mais diversos aspectos.

ENTREVISTA

Game Designer Fabiano Naspolini de Oliveira

Fale um pouco sobre você e sua trajetória como Game Designer

R: Meu nome é Fabiano Naspolini de Oliveira e atuo na área de jogos desde 2006, quando comecei estes estudos na faculdade. Sou formado em Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Especialista em Game Design e Docência para Educação Profissional, além de Mestre em Tecnologias da Informação e Comunicação. Já tenho mais de 15 jogos no meu portfólio, tanto educativos, quanto advergames e entretenimento, feitos para jogadores e empresas.

Toda essa experiência veio dos meus estudos, experimentos sozinho e, no passado, tive um estúdio de jogos chamado “Céu Games”. Atendi clientes com jogos customizados de acordo com a necessidade deles e ganhamos o Prêmio Mobile Fest de Aplicativos Móveis da Claro em Primeiro Lugar com o game Sperm Race.

Telas do game Sperm Race

Também trabalhei como redator do site Nintendo Blast, cuja experiência me ajudou a analisar os mais diversos jogos do mercado. Hoje sou game designer, escritor de ficção e cuido do site Fábrica de Jogos, portal sobre desenvolvimento de jogos com canal no Youtube voltado a game designers. Meu foco está na educação dos desenvolvedores de jogos e, principalmente, game designers iniciantes.

Fale um pouco sobre o canal Fábrica de Jogos no Youtube

R: Na verdade o Fábrica começou com o site, em outubro de 2013. A ideia era ter conteúdo em português sobre desenvolvimento de jogos feito de forma voluntária com redatores dessa forma também. Foi por um bom tempo assim com artigos, tutoriais e matérias das mais diversas em formato de blog, texto.

O canal foi surgir somente no final de 2015 e falava de desenvolvimento de jogos em geral. Pouco era falado sobre projetar games (Game Design), por isso decidi direcionar o canal para este tema pouco comentado. Nesse processo, ocorreu que, em meados de 2017-2018, o modelo voluntário não estava dando mais certo e o Fábrica estava estagnado de crescer pela falta de receita própria. Não dava dinheiro, resumindo. Percebi que, se continuasse assim, eu ia acabar tendo que fechar tudo que criei com o Fábrica. Afinal, minhas contas pessoais não paravam de chegar e acabava tendo que focar em trabalhos que me dessem grana para pagá-las.

Canal Fábrica de Jogos no Youtube

Foi com minha insatisfação em trabalhar com educação formal na época e esse iminente fechamento do Fábrica que tomei uma decisão, o Fábrica como um negócio. Até então o levava como segundo plano, algo como meu lazer. Queria na época seguir trabalhando na educação formal. Com tudo isso, direcionei tudo ao game design e ao canal no Youtube. Fui me aprofundar em questões comerciais e de negócios, específicas para o modelo que pensava para o Fábrica.

Logo, comecei a criar materiais pagos como cursos online e outros. Isso trouxe fôlego e oportunidade de manter o Fábrica e não só isso: de fazê-lo crescer. Hoje estou com perspectiva de crescimento, feliz e creio que o Fábrica só tem a melhorar daqui em diante. Que assim seja.

Quais são seus projetos mais marcantes?

R: O Fábrica como conteúdo educativo é bem marcante. Vejo que foi muito ousado e encontro muita gente que me conheceu na época que só tinha o site. Mas, de jogos que produzi, teve alguns na época que tive o meu estúdio e depois os meus individuais. Da época do estúdio, destacaria o Sperm Race, pois foi o primeiro jogo maior que fiz.

Também teve o Biocautus que foi um jogo educativo muito extenso, complexo e que ali foi o momento que eu olhei e disse: ser game designer é o meu caminho mesmo. Memobot por ser sido o meu primeiro jogo comercial. Já no pessoal, o Isaac e o Enigma do Explorador por ter uma equipe maior e proposta de jogo que nunca tinha trabalhado (jogos em 3D).

Atualmente, meu game, que está sendo feito para a Steam, já está sendo marcante, pois vai ser fundamental para mim tê-lo publicado nesse site tão conhecido dos gamers. Por enquanto não posso dar detalhes, mas futuramente divulgarei pelo Fábrica.

Biocautus
Isaac e o Enigma do Explorador

Quais as principais ferramentas de trabalho de um Game Designer?

R: São várias. Desde editores de texto, motores de jogos,  sistemas de roteiro – muitos acabam sendo escritores das histórias também -, materiais manuais como papel, dados, fichas etc… tudo que sirva para conseguir idealizar o jogo, transformá-lo em produto testável, ver se a ideia funciona e planejar a experiência para os outros entenderem a proposta e seguirem o planejado. Mas, não tem regra. Já usei até caderno e protótipo feito de papel para simular o que queria para o meu jogo. Então, tudo é possível para planejar e validar a sua proposta de game.

Quais os maiores desafios que um Game Design enfrenta no mercado de desenvolvimento de games?

R: Primeiro, ter a consciência que, em um mercado,  predominantemente, indie você não será só game designer. Vai acumular outras funções no desenvolvimento de jogos. No jogo atual que trabalho sou produtor, game designer e programador dele. Segundo, que tem que ter a capacidade de planejar e prototipar suas ideias. Só fazer um papel dizendo como será o seu jogo não é suficiente.

Tem que validar para ver se funciona até chegar no ideal e ao seu jogador. Por último, diria que a falta de valorização desse profissional. Tenho visto muita gente que já domina arte e programação, percebendo que o jogo não sai bom, não termina, decisões equivocadas, desorganizadas e por aí vai. Falta trabalho de game design aí, além de produção. O que ocorre é que muitos falam e valorizam bastante programação de jogos, arte 2D e 3D e por aí vai e querem muito aprender isso. O que é normal em um primeiro momento, pois queremos ver o jogo sendo jogável, a construção e realização de ver o personagem andando, as coisas acontecendo… Isso realmente fascina. Só que com o tempo, percebem aqueles problemas mencionados anteriormente.

De fato, poucos se preocupam com o game design quando não falam que é perda de tempo. Só que depois perdem tempo por justamente não terem pensado em game design. Afinal, é chato planejar e ter que lidar com esse tipo de coisa. Mas quem disse que faremos só coisas legais no desenvolvimento de jogos? Faremos o que é necessário para que o jogo seja bem sucedido. Claro que as outras áreas são importantes para o jogo acontecer no final, mas não ter um game designer é como ter um jogo que não se sabe dar a forma certa para o seu jogador, sem aquela experiência boa para ele.

E ENTÃO

Assim, o Game Design mostra-se fundamental desde a fase de projeto até a conclusão do game, tratando de diversos aspectos imprescindíveis para uma boa experiencia do jogador.