
Quando se fala de animês que passaram pela Rede Bandeirantes, todo o mundo se lembra de Dragon Ball Z, exibido em 1999, e as demais séries que só foram dar as caras no ano seguinte pelo inesquecível Band Kids, exibido entre o ano 2000 e 2001. No entanto, muitos esquecem de um animê que foi exibido anos depois e que passou meio despercebido nas noites de agosto da emissora paulista. Essa série era Slayers, um animê de aventura, comédia e fantasia com aquele gostinho de jogos de RPG de mesa que todo o mundo ama. Uma série que prometia fazer um enorme sucesso na TV brasileira, mas que acabou sendo esquecida devido às decisões duvidosas do canal do esporte.
Mas afinal, do que se trata essa série?
Slayers é uma franquia de mídia que se originou de uma light novel, que foi criada por Hajime Kanzaka e Rui Araizumi, sendo publicada pela revista Dragon Magazine, da Fujimi Shobo, uma antiga filial da editora Kadokawa Shoten. A série conta a jornada da jovem e esquentada feiticeira Lina Inverse, que se aventura por um mundo medieval ao lado de seus companheiros. Usando magia e espadas, ela enfrenta feiticeiros, criaturas que ameaçam o mundo e algumas gangues de bandidos.
Com o enorme sucesso que obteve, a série conta com vários volumes sendo publicados até hoje, diversos spin-offs, jogos para diversas plataformas, filmes, OVAs e, claro, sua renomada série animada para televisão, cada mídia contando sua própria história.
Produzida pela Enoki Films, junto com o estúdio E&G Films, a empresa SoftX e a emissora TV Tokyo, a série original, que estreou em 7 de abril de 1995, contava a história da carismática feiticeira ruivinha juntamente com seus amigos: o atrapalhado espadachim Gourry Gabriev, a hiperativa e determinada princesa Amelia Will Tesla Saillune, Zelgadiss Graywords, um jovem feiticeiro-espadachim, que foi transformado em uma quimera, e a doce sacerdotisa Sylphiel Nels Lahda. A série original contou com três temporadas iniciais nos anos 90: Slayers (1995); Slayers Next (1996); e Slayers Try (1997); e nos anos 2000, eram lançadas as temporadas Revolution (2008) e Evolution-R (2009).
Cada temporada tinha a sua trama (vamos dar mais foco às três primeiras): a primeira temporada contava a jornada principal do grupo impedindo Rezo, um sacerdote cego que está manipulando eventos para reviver o demônio Shabranigdo. Na saga Next, somos introduzidos ao monge Xellos Metallium, que se une ao grupo em busca da Bíblia de Clair, um texto sagrado de valor inestimável, mas eles terão que lidar com Maryuo Gaav, que busca pela bíblia para seus próprios fins, e Fibrizzo, um demônio com a aparência de um garotinho andrógino que é ainda mais poderoso que Maryuo, isso tudo para serem impedidos pela princesa Martina, que quer se vingar de Lina após a mesma ter destruído seu país. Já em Try, somos introduzidos a uma história totalmente original, que não adapta nenhuma das light novels da franquia. Aqui, Lina e seus amigos devem enfrentar Valgaav, discípulo de Maryuo, que busca por cinco armas de luz dispersas por todo o mundo, e entre elas, está a espada de Gourry, com o intuito de liberar um demônio ainda mais poderoso que todos os anteriores. É aí que aparece Filia Ul Copt, uma sacerdotisa que pede a ajuda de Lina para evitar que tudo isso aconteça, mas descobrem que Xellos tem seus próprios objetivos com as cinco armas, mesmo que a protagonista e seus amigos arrisquem suas vidas para alcançá-los.
A série de TV de Slayers foi um enorme sucesso no Japão, tanto que em janeiro de 1996, foi exportada internacionalmente pela primeira vez para Hong Kong, com uma dublagem em cantonês, exibida pelo canal ATV Home. Não demorou muito para que, em maio, a Central Park Media trouxesse a produção para os Estados Unidos, sendo posteriormente licenciada em vários países de língua inglesa, como Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e até na Singapura, convertendo-se em um dos maiores clássicos da animação japonesa, em nações anglófonas. A animação também chegou a ser dublada em vários outros países asiáticos, como Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia, Taiwan, Coreia do Sul, e claro, teve presença extremamente forte no continente europeu, principalmente em nações de línguas latinas, como na Itália e na Espanha.
Aqui na América Latina, o desenho chegou por intermédio da distribuidora Rose Entertainment, que dublou as três primeiras temporadas para o espanhol latino-americano em 1997, na Venezuela, sob o título de Los Justicieros (ou Os Justiceiros), e indo ao ar pela primeira vez, no mesmo ano, pelo canal Frecuencia Latina, do Peru, sendo esta a primeira pátria da região a passar o animê. Logo, entre 1998 a 2000, canais como Azteca 7 (México), Chilevisión, ETC TV (Chile), Telemetro (Panamá), Televen (Venezuela) e o Magic Kids (Argentina) começaram a exibir a série, convertendo-a em um fenômeno em nações hispano-americanas.

Mas enquanto no Brasil?
Tudo começou em 1999, quando a Mundial Filmes havia adquirido Slayers, sublicenciando-a diretamente do catálogo da Rose, tendo como alvo a Rede Record, no entanto, devido à rigidez da emissora, ela recusou a oferta. No entanto, uma emissora havia se interessado na série. A Bandeirantes, que nos anos 2000, estava fazendo sucesso com outros animês, como Dragon Ball Z, Bucky, Tenchi Muyo! e El Hazard (os três últimos exclusivos do bloco Band Kids). Vendo o potencial da série, a Band comprou o desenho e dublou as três temporadas na Dublavídeo, em São Paulo (logo, falamos da dublagem em si) e logo depois, começou a preparar a emissão da série. No entanto, tudo foi por água abaixo quando houve uma troca de direção executiva que, em resumo, acabou com o Band Kids. O máximo que tivemos em 2001 foram somente os OVAs de Tenchi Muyo! e nada de Slayers.
Entretanto, em 18 de agosto de 2003, como uma tentativa fracassada de substituir o programa pífio do Otávio Mesquita, do absoluto nada e sem aviso prévio, Slayers estreava na grade da emissora (obviamente, como um tapa-buraco e como programa independente), às nove da noite. A série até contou com uma fiel (mas pequena) audiência, que já aguardava a sua vinda desde o fim dos anos 90 e início dos anos 2000 graças às previsões das revistas, mas devido ao péssimo horário, a série foi ignorada por grande parte do público e acabou caindo no esquecimento. A série até contou com reprises no outro canal do Grupo Bandeirantes, a Rede 21, juntamente com as outras séries emitidas pelo Band Kids, e o canal até tentou exibir a saga Next, avisando os telespectadores em seu site, porém, a estreia da segunda saga ficou só na promessa e continuaram reprisando a primeira, fazendo o público perder a esperança. Até hoje, as duas últimas temporadas do animê permanecem inéditas por aqui.
Cabe aclarar que Slayers também teve os seus mangás publicados pela Panini no Brasil, mas não obteve muita repercussão.
A dublagem brasileira, como já mencionado, foi feita na Dublavídeo, de São Paulo, possivelmente entre final de 2000 e início de 2001, sendo dirigida pela finada Leda Figueiró (que também dirigiu a dublagem do icônico Shurato), e utilizando como base a versão em espanhol latino (sendo algo bastante perceptível pelas semelhanças entre os diálogos e reações). Para os fãs da série, a versão brasileira deixou um pouco a desejar, devido à quantidade de falhas na tradução e adaptações errôneas no roteiro, apesar da quantidade de presenças ilustres da dublagem paulista, como Letícia Quinto (conhecida por ter dado vida à Saori Kido, dos Cavaleiros do Zodíaco) como a protagonista Lina Inverse (ou Rina, na dublagem), Alfredo Rollo (o Vegeta) na voz do Gourry (ou Gaudy), Fernanda Bullara na voz da Amelia (ou Ameria), Alexandre Marconato como Zelgadiss e Márcia Regina como Sylphiel.
Vale destacar também a abertura e o encerramento, Get Along e Kujikenaikara!, originalmente performados por Megumi Hayashibara (voz original japonesa da Lina) e Masami Okui, e interpretados na dublagem brasileira pela cantora Nísia Back, que infelizmente faleceu em 11 de junho de 2026.
Mesmo com todos os problemas que a série teve no Brasil, isso não impediu que a série se convertesse em um clássico cult no país, e com uma fiel base de fãs. Até hoje, Slayers é lembrado com carinho como um clássico injustiçado da Band, e também um verdadeiro clássico da animação japonesa dos anos 90. No momento, a série não se encontra em nenhum serviço de streaming.






