Eu vou contar a história da locadora mais estranha que já vi. Não começa com neon na vitrine nem com pôster importado.

Começa numa viagem pra Avaré, interior do estado de São Paulo, quando fui visitar meu tio Damasceno Salomão, delegado na época. (Ele chegou a ser homenageado na novela Fera Radical, pelo autor Walter Negrão que é da mesma cidade e amigo de infância, mas isso é outra história.) Era um sábado de céu parado. No carro, meus primos citaram um lugar com nome esquisito: Super Vídeo & Game. Riram. “Você vai ver.”

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Milton Gonçalves interpretou o delegado Damasceno em Fera Radical (1988) em homenagem ao verdadeiro Damasceno de Avaré-Sp

A missão parecia simples: comprar carne, refrigerante e pão pro almoço. O roteiro lógico era mercado e padaria. Mas a tia disse “passa lá na Super Vídeo & Game que resolve”. Achei graça. Como assim resolve?

A fachada já dava spoiler do caos: cartazes de filmes desbotados grampeados sobre propagandas de Coca-Cola, anúncios de ofertas escritos à mão, letras tortas, muita fita crepe segurando o mundo. Tinha TV ligada com rádio alto por cima, um cheiro de comida feita na hora atravessando a rua. Uma moça saiu com marmita numa sacola; atrás dela, um menino entrou correndo com uma fita VHS sem caixa.

Por dentro, a poluição visual piorava — ou melhorava, dependendo do humor. Prateleiras com capas descascando, etiquetas remendadas. Andei mais e topei num balcão com uma Bíblia aberta e uma cruz pregada bem acima, vigiando o caixa. Atrás, um corredor com crianças discutindo quem era o player 1. “É aqui”, disse meu primo, achando graça da minha cara.

Fonte: www.auniao.pb.gov.br

A seção de games parecia um trabalho de arte de feira de ciências: recortes de revista colados sem dó, tudo misturado — Alex Kidd, The Lucky Dime Caper, nomes tortos com canetão, alguns cartazes desenhados à mão (nítido: criança de uns dez anos botou talento ali). Não era bonito, era improvisado. E tinha vida.

Meu primo encostou no balcão:
Tião, um quilo e meio de carne e dez pães.
O homem, cinquenta e poucos, bigode preciso, levantou a cabeça do caderninho.
Luzia! — ele chamou, e a Luzia apareceu de avental, caneta no cabelo, voz de quem resolve.
Ali eu entendi: aquilo não era só locadora. Era padaria, marmitaria, mercearia, locadora de vídeo e de game. E mais alguma coisa que eu ainda não tinha visto.

— A gente vai jogar por hora, tá? Daqui a pouco pega a carne e o pão — meu primo completou, já virando pra TV de tubo.

Sentamos. Master System ligado. Entrou a tela de Alex Kidd in Miracle World e o som do PSG, cor chapada, alegria simples da época. Fomos jogando normalmente até que sem aviso, o som da TV virou fundo de conversa. Depois, fundo de reza. Eu olhei pro balcão.

Fonte: jogoveio.com.br

O Tião estava em pé, mão apoiada na Bíblia, duas senhoras ao lado, três rapazes sentados em cadeiras de plástico. A Luzia vinha e ia, embrulhando pão, separando carne, apaziguando o mundo. O Tião respirou fundo e começou um culto. Ali. No meio de cartucho, VHS e refrigerante. A cada “amém”, a campainha da porta marcava outro cliente. E a gente seguia jogando, tentando não perder vida no som da oração.

Eu nunca soube se era uma igreja oficial ou uma reunião de vizinhança. Só sei que aquilo funcionava. Uma mulher entrou, pediu uma marmita de parmegiana, “capricha no arroz”, e saiu com o pacote e uma bênção. Um garoto devolveu Trapalhões e apontou pro Street Fighter desenhado no cartaz à mão. O Tião, no intervalo do salmo, anotou o nome no mesmo caderninho onde fechava a conta da carne.

Quando acabou o culto, o Tião veio até nós.
Tempo fechando, meninos. Querem mais meia hora?
— Queremos — meu primo respondeu, e o Tião sorriu.
Luzia, dá mais dez minutos pra carne pegar sal.

Se você me perguntar o que era a Super Vídeo & Game, eu respondo: um lugar onde cinco negócios cabiam dentro de um só. E cabiam porque o dono e a dona faziam caber. Tinha caos? Tinha. Tinha vida também. O Brasil sempre inventou esses híbridos: quando o bairro pede pão e filme, oração e aluguel de fita, alguém junta tudo e abre a porta.

Fonte: www.acritica.net

No fim, pegamos o pacote de pães, a carne e anotamos nossos nomes no caderno da locação. Tinha mais coisa escrita ali: “Culto quarta 19h”, “Pagar Seu Pedro”, “Devolver Rambo 3. Eu saí pensando que nunca mais veria algo parecido.

Anos depois, tentei achar o endereço. Nada. Sumiu do mapa. Os primos disseram que o casal não era dali, que “mudaram de ramo” e foram embora. A fachada, talvez, virou outra coisa. Talvez a TV de tubo tenha virado telão da igreja. Talvez os recortes de revista tenham virado cartaz da catequese. Ninguém soube dizer.

O inesperado veio muito tempo depois, desmontando caixas em casa. Dentro de um manual de videogame, caiu um papel amarelado — um recibo antigo, dobrado, carimbo falhado: SUPER VÍDEO & GAME. Embaixo, escrita torta de caneta azul:
“2h Alex Kidd – 1,5kg carne – 10 pães — ‘bom jogo, Deus abençoe’ — Tião.”

Fonte: Comunidade Mega Drive

Eu fiquei alguns segundos parado, segurando o papel como se fosse fita rara. Não tem foto, não tem registro na internet, não tem anúncio de jornal. Mas tinha um recibo com o jogo, o almoço e a benção na mesma linha. Era a Super Vídeo & Game inteira naquele retângulo de papel: locadora, padaria, marmitaria, mercearia, igreja. Tudo junto. Tudo Brasil. E, no verso, um rabisco de criança: um controle desenhado a lápis, com fio e tudo.

Se alguém me perguntar por que a memória de locadora ainda mexe comigo, eu respondo com esse papel. Porque a gente não alugava só um filme. A gente alugava um pedaço de bairro. E, às vezes, levava pão, carne e uma bênção no mesmo pacote.