Nos anos 90 e 2000, a TV a cabo ainda era para poucos, e foi justamente nesse cenário que o canal Locomotion conquistou o coração dos fãs de animação japonesa ao apostar em uma programação ousada, alternativa e totalmente voltada para o público juvenil e adulto, sendo esta uma janela perfeita para produções que a TV aberta jamais exibiria.

O canal, que podia ser assistido para quem era assinante da DIRECTV (atual Sky), destacava-se pelo seu catálogo exótico de séries animadas japonesas que possuíam temáticas mais pesadas. Dentre os clássicos exibidos no canal, estão: a primeira parte de Lupin III (conhecida na América Latina como “Cliffhanger“), a franquia Saber Marionette, Blue Seed, Caçadores de Elfas, Cowboy Bebop, Sukeban Deka, Oh! My Goddess, Neon Genesis Evangelion, entre outras.

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No entanto, havia um título que conseguia se destacar não apenas pela história, pelos personagens e pelas batalhas épicas entre robôs gigantes, mas também pela verdadeira polêmica que até hoje é considerada a sua dublagem: a série O Barão Vermelho (ou Red Baron).

Assim como outras séries como Popolocrois, Slayers e Let’s & Go, O Barão Vermelho faz parte do grupo de séries de animê dos anos 90, exibidas no Brasil, porém menos lembradas pelos brasileiros, e assim como os outros de seu “gênero”, possui razões plausíveis.

Mas afinal, do que se trata esse animê?

Red Baron é uma produção da TMS Entertainment (mesma de IronMan 28, Ratinho Gamba, Lady Oscar, Guerreiras Mágicas de Rayearth e Lupin III) e exibida pela Nippon Television entre 1994 e 1995. Trata-se de uma releitura de um antigo tokusatsu chamado Super Robot Red Baron, de 1973. No entanto, ambas obras são completamente distintas, o que significa que quem assistiu somente a série animada não precisa se preocupar em assistir o original.

A trama se passa no ano de 2020 e o mundo está concentrado em um evento esportivo conhecido como “Luta Metálica“, um torneio onde os participantes lutam com seus mechas. Essa intensa batalha entre robôs determina quem possui a maquina mais precisa e o poder mais absoluto. Enquanto isso, uma organização clandestina maligna chamada O Máscara de Ferro planeja secretamente transformar esses lutadores metálicos em armas mortais de destruição em massa.

A história começa quando a organização sequestra Tetsuo Saeba, um brilhante cientista, e um máquina robótica perfeita, o Barão Vermelho. A filha do Dr. Saeba, Shouko, uma programadora de robôs experiente, localiza o lugar onde esconderam sua criação. Ela tenta escapar em um caminhão com a máquina, mas acaba sendo encurralada. É então que Ken Kurenai, um jovem obstinado de recursos modestos, mas com grandes sonhos de pilotar um robô, vem socorrer a garota. Essa oportunidade surge com o Barão Vermelho, com quem ele salva Shouko e, em seguida, faz sua estreia na batalha de robôs, conquistando o título mundial de Campeão de Luta Metálica.

No entanto, Ken e Shouko, junto com o amigável robozinho Robby, precisam enfrentar a organização O Máscara de Ferro, que não medirá esforços para destruir o Barão Vermelho, como também resgatar o pai de Shouko, cujo paradeiro ainda é desconhecido. Assim, a maior batalha de todas começa entre as forças do mal e o Barão Vermelho, um defensor ferrenho da paz e da justiça.

Imagem: Reprodução/NTV, TMS Entertainment

E o que aconteceu no Brasil?

A chegada de Red Baron à América Latina ocorreu em 1995, com exibição inicialmente exclusiva no México pela emissora Azteca 7. O cenário mudou em 1997 com a expansão do recém-lançado canal de TV por assinatura Locomotion. Antes de se consolidar como um dos principais reduto da animação japonesa na região, a emissora focava em animações ocidentais clássicas, mas decidiu diversificar sua grade com produções mais alternativas. Foi nesse contexto que estrearam os dois primeiros animês do canal: Red Baron e Lupin III: Part I. Para o mercado hispânico, ambas as séries receberam versão local gravada em Los Angeles — uma prática comum na época para as produções da TMS Entertainment.

Como a Locomotion já operava no Brasil através de algumas provedoras de TV a cabo, como a DIRECTV, foi encomendada a localização em português para ambas as obras. Enquanto Lupin III recebeu tratamento no Rio de Janeiro pelo estúdio Sincrovídeo — estrelando Peterson Adriano (conhecido por dar voz a Koenma em Yu Yu Hakusho) como Arsene Lupin (ou Aramis Lupin, na dublagem) —, Red Baron teve um destino diferente. Visando a redução de custos operacionais, a série foi enviada para Miami e dublada na BVI Communications, mesmo estúdio responsável pela versão brasileira de South Park, também transmitida pelo canal. Essa decisão comercial resultou em um trabalho altamente controverso, cujos ecos ainda dividem os entusiastas e pesquisadores da mídia.

Sob a direção de Martha Rhaulin, que também emprestou sua voz à personagem Shouko (ou Sally Saeba, na dublagem), o elenco contou com Don Donini interpretando Ken Kurenai (ou Kent Flores) e Chatatsu Lee. O projeto reuniu outras figuras carimbadas daquele polo de gravação, incluindo Alex Texeira (nos papéis de Komei Ryu e Dr. Asimov), Maria Rocha, Cleber de Castro e Margarita Coego (como a sensual Dra. Marilyn).

Contudo, a execução técnica e artística deixou a desejar. O estúdio trabalhou com um número bastante reduzido de profissionais, forçando a dobra de vozes — quando um mesmo ator interpreta múltiplos personagens simultaneamente — e entregando atuações que frequentemente soavam forçadas ou inexperientes. Embora o contexto histórico exija certa leniência, afinal, trata-se de um dos trabalhos pioneiros do incipiente mercado de dublagem brasileira na Flórida, é inegável que, para uma parcela significativa do público e da crítica, o resultado final foi tecnicamente desastroso.

Apesar dos problemas em sua adaptação para o nosso idioma, a exibição de Red Baron pela Locomotion permanece como um marco fundamental na história do animê na América Latina. A série não apenas pavimentou o caminho para a posterior invasão japonesa no canal, como também se tornou parte nostálgica da infância de muitos, que guardam a jornada de Kent e Sally, junto ao Barão Vermelho, e suas batalhas com muito carinho no coração.

Red Baron pode não ser perfeito, mas é uma série bastante divertida, com personagens cativantes e bem desenvolvidos, uma história surpreendente do início ao fim e um baita tributo a um clássico da década de 1970.