
He-Man estreou nos EUA em 1983 como uma estratégia da Mattel para vender brinquedos. Virou um dos maiores fenômenos da animação ocidental. Mas o que pouca gente sabe é que, no Brasil, esse fenômeno tomou uma dimensão completamente diferente — com trilhas proibidas para crianças, músicas de grupo espanhol obscuro, homenagens do grupo mais fofo da Globo e um elo afetivo que nenhum outro país no mundo construiu da mesma forma.
A dublagem que criou um universo paralelo
Quando He-Man e os Mestres do Universo chegou ao Brasil, foi adaptado pelo estúdio Herbert Richers, sob a direção de Ângela Bonatti, uma das maiores profissionais da história da dublagem nacional. O resultado foi uma das versões mais elogiadas do mundo — vozes marcantes, timing perfeito, personagens com personalidade própria em português.
Mas o que transformou a dublagem brasileira em objeto de culto foi algo completamente diferente: em alguns episódios, a Herbert Richers inseriu músicas incidentais que simplesmente não existiam na versão original americana. Provavelmente os episódios chegaram sem a trilha devidamente mixada. E o que a equipe fez? Cavou na prateleira e colocou o que tinha à mão. O resultado foi acidental, genial e absolutamente improvável.

Laranja Mecânica em Eternia
O episódio “A Semente do Mal” — título original Evilseed — é considerado por fãs como um dos mais sombrios da série. Coincidência ou não, foi exatamente nele que a dublagem brasileira inseriu uma das escolhas musicais mais absurdas da história da televisão infantil: um trecho de “Timesteps”, composição de Walter Carlos que integra a trilha sonora de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.
Isso mesmo. Crianças brasileiras assistiram He-Man enfrentando o vilão Evilseed ao som de música do filme adulto mais polêmico do cinema mundial. Uma obra-prima de Kubrick que causou escândalo global nos anos 70 entrou tranquilamente num desenho infantil — e só no Brasil.
Azul y Negro: o “Kraftwerk da Espanha” em Eternia
Outros dois episódios receberam músicas igualmente improváveis: “Fantasía de Piratas” e “Fu-Man-Chu”, do grupo eletrônico espanhol Azul y Negro — descrito por fãs como “o Kraftwerk da Espanha”, com um som sintetizado pesado que remetia mais a trilha de jogo de Atari do que a um desenho de fantasia épica.
A identidade dessas músicas ficou um mistério por décadas. Foi só em meados de 2008, em comunidades do Orkut, que fãs brasileiros finalmente conseguiram identificar as faixas. Uma investigação coletiva, inteiramente brasileira, para desvendar os segredos de uma dublagem feita décadas antes. E o mais curioso: quando as músicas foram identificadas, os fãs foram unânimes — combinavam demais com o desenho.
O Trem da Alegria e a Semente do Mal
O Trem da Alegria gravou uma música original sobre He-Man — composta por Michael Sullivan e Paulo Massadas — que se tornou hino de uma geração inteira. A letra passeia por Mandíbula, Maligna, Esqueleto, Teela, Zoar e Gorpo com uma precisão de fã que impressiona. O refrão ficou gravado na memória afetiva do Brasil: “Eu tenho a força / Sou invencível / Vamos amigos / Unidos venceremos a semente do mal“.
A coincidência é irresistível: a mesma expressão que nomeia o episódio onde a trilha de Laranja Mecânica foi inserida virou o verso central do hino infantil mais cantado sobre o personagem no país. Dois mundos opostos, o de Kubrick e o do Trem da Alegria, convergindo no mesmo bordão — sem que ninguém tivesse planejado isso.

O Brasil e He-Man: Uma ligação que vai além do óbvio
He-Man não foi apenas popular no Brasil — ele foi absorvido pela cultura brasileira. A série passou pela Rede Globo dentro de programas como Balão Mágico, Xou da Xuxa e TV Colosso, o que significa que o personagem esteve ao lado de Xuxa Meneghel na mesma tarde de milhões de crianças.
No mercado de brinquedos, a Estrela distribuiu a linha Masters of the Universe sob licença da Mattel a partir de 1986, com embalagens em português, minigibi incluso e o Castelo de Grayskull em 66 centímetros de plástico que cabia mal no quarto de qualquer criança e era cobiçado por todas.
Três episódios da dublagem clássica foram perdidos ao longo dos anos — “Feliz Aniversário Roboto”, “A Volta de Gorpo” e “Visitantes da Terra” —, e quando a Focus Filmes lançou a série em DVD, o estúdio Clone precisou regravar esses três episódios do zero. Parte da memória brasileira de He-Man se perdeu para sempre, e outra foi reconstruída artesanalmente.

O filme de 2026: um presente com prazo de validade
Dirigido por Travis Knight (Bumblebee) e estrelado por Nicholas Galitzine como He-Man, Jared Leto como Esqueleto, Idris Elba como Mentor e a brasileira Camila Mendes como Teela — a primeira atriz de sangue brasileiro a interpretar um personagem central de Eternia —, o filme entrega algo que nenhum trailer conseguiu antecipar.
O Príncipe Adam desta versão é mais humano, mais frágil, mais reconhecível — e isso funciona. O roteiro está repleto de referências diretas a episódios do desenho original que fazem quem cresceu com a série soltar um sorriso involuntário no meio da sessão. A exceção mais evidente é Mentor: fisicamente distante da referência do desenho e com uma personalidade reimaginada demais para quem carrega a memória afetiva do original. O Castelo de Grayskull também aparece menos do que merecia.
Ainda assim, o filme entrega o que importa: por alguns minutos, você é transportado de volta à infância. A sensação é física, quase involuntária. E então as luzes da sala acendem e você descobre que voltou para o tempo presente. Esse intervalo — breve, mas real — é o maior mérito da produção. Masters of the Universe (2026) é, acima de tudo, um presente para os fãs do desenho. Uma conexão com a memória afetiva embrulhada em orçamento de Hollywood.

Palavra Final
He-Man nunca foi só um desenho por aqui. Foi trilha de Kubrick infiltrada numa tarde de terça-feira. Foi o Trem da Alegria cantando a semente do mal sem que nenhuma criança soubesse o peso daquelas palavras. Foi a Estrela, foi a Xuxa, foi o Orkut resgatando mistérios de décadas. Foi, acima de tudo, uma franquia que o Brasil reconheceu como sua — e transformou, sem pedir licença, em algo completamente original.
Pelos poderes de Grayskull… o Brasil sempre soube o que estava fazendo.








