Às vezes a gente assiste a um desenho achando que tudo saiu apenas da cabeça do criador. Mas muitos personagens famosos nasceram de uma mistura curiosa: uma pessoa real, uma lembrança de infância, um bicho barulhento no telhado, um ator visto na TV. E depois esses personagens ainda atravessaram outra tela: a dos videogames.

1) Popeye — o marinheiro que veio de um homem real

Popeye apareceu nos quadrinhos de E. C. Segar em 1929, mas a lenda mais aceita liga o personagem a Frank “Rocky” Fiegel, morador de Chester, Illinois, cidade natal de Segar. Fiegel era lembrado como um homem forte, brigão, de queixo marcante e jeito durão — traços que acabaram virando parte da imagem do marinheiro.

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Nos games, Popeye teve um momento histórico: o arcade Popeye, lançado pela Nintendo em 1982, virou um clássico simples e direto, com o jogador coletando itens de Olívia enquanto foge de Brutus. Curiosamente, antes disso, a Nintendo tentou usar a licença do Popeye no projeto que depois virou Donkey Kong — e quando a licença não saiu, nasceram Jumpman/Mario, Pauline e Donkey Kong.

Frank “Rocky” Fiegel, o homem que inspirou o personagem Popeye

2) Pica-Pau — o pássaro real que virou caos animado

O Pica-Pau, criado no estúdio de Walter Lantz, tem uma origem cheia de versões. A história mais famosa diz que Lantz teria se inspirado em um pica-pau boloteiro que fazia barulho no telhado durante uma viagem. Já visualmente, muitos observadores apontam semelhanças com o pica-pau-de-topete-vermelho, principalmente pelo topete marcante e pela postura mais “selvagem” do personagem.

Seja qual for a inspiração exata, uma coisa é certa: o Pica-Pau saiu da natureza, virou desenho animado e acabou chegando também aos videogames.E aqui entra um detalhe muito especial para nós, brasileiros: antes de aparecer em corridas e jogos lançados lá fora, o Pica-Pau teve um jogo autorizado e desenvolvido no Brasil pela TecToy. Férias Frustradas do Pica-Pau foi lançado para Master System e Mega Drive, exclusivamente no mercado brasileiro, em meados dos anos 90.

O jogo colocava o personagem em uma aventura de plataforma para resgatar seus amigos das mãos do Zeca Urubu, com fases coloridas e aquele clima de desenho da TV. Isso torna o caso do Pica-Pau ainda mais curioso: ele não só virou personagem de videogame, como ganhou uma adaptação feita por uma empresa brasileira, num período em que a TecToy ainda mantinha o Master System e o Mega Drive vivos por aqui. Para muita gente, essa foi a primeira grande lembrança do Pica-Pau nos consoles — antes mesmo de jogos como Woody Woodpecker Racing, lançado anos depois para plataformas como PlayStation, PC e Game Boy Color.

3) Arlequina — de uma atriz da TV para Gotham

A Arlequina nasceu em Batman: The Animated Series, em 1992, e foi criada por Paul Dini e Bruce Timm. A inspiração veio de Arleen Sorkin, amiga de Dini, que apareceu vestida como bobo da corte numa sequência de sonho da novela Days of Our Lives. Sorkin não só inspirou a personagem como também foi sua primeira voz.

Nos games, a Arlequina ganhou força especialmente em Batman: Arkham Asylum e nos jogos seguintes do universo Batman. Ela é um bom exemplo de personagem que nasceu num desenho animado, atravessou os quadrinhos e depois virou presença forte nos videogames modernos.

Arleen Sorkin

4) Krusty — o palhaço dos Simpsons que veio de um palhaço real

Krusty, o Palhaço, de Os Simpsons, foi parcialmente inspirado em Rusty Nails, palhaço de TV que Matt Groening assistia quando criança em Portland. Groening já comentou que Rusty era um palhaço doce, diferente do Krusty decadente e cínico da série — mas o nome e a lembrança ficaram na cabeça dele.

E Krusty também virou jogo: Krusty’s Fun House / Krusty’s Super Fun House, de 1992, saiu para vários consoles, incluindo NES, Super Nintendo, Mega Drive, Master System, Game Gear e Game Boy. Era um puzzle-plataforma em que Krusty guiava ratos até máquinas de extermínio — estranho, mas bem anos 90.

Rusty Nails, palhaço da TV que inspirou o personagem Krusty

No fim, esses personagens mostram que desenho animado nunca foi só fantasia. Às vezes começa com um sujeito brigão de cidade pequena, uma ave barulhenta, uma atriz fazendo graça na TV ou um palhaço local que grudou na memória de uma criança. Depois tudo isso vira cartoon, quadrinho, brinquedo, videogame — e acaba fazendo parte da nossa própria infância.