Saudações a todos. Fiquei muito feliz com o convite feito pelo Cleber Marques para escrever aqui no portal da WarpZone e contar as “Memórias de um Play Game”. Nesta coluna vou relatar experiências verídicas da minha vida durante a época de ouro dos videogames.

No final dos anos 80 e início dos anos 90, eu e minha família já havíamos morado em muitas cidades do interior do Paraná devido à profissão do meu pai, que é promotor de justiça, e no ano de 1992 ele havia sido promovido novamente para minha cidade natal chamada Apucarana, no estado do Paraná.

Nessa época, comecei a estudar no Colégio Braga Cortes, popularmente conhecido como “4º Grupo”, onde eu cursava a quarta série. Nesse ano eu ganhei meu primeiro videogame, o “Micro Genius”, clone de Nintendinho, que veio junto uma fita de 210 jogos.

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Quem trouxe para mim foi uma mulher chamada “Jacinta”, uma sacoleira que trazia importados do Paraguai para Apucarana. Com o videogame e o cartucho, tive acesso aos primeiros jogos do Nintendinho como Super Mario, Adventure Island, Galaxians, Donkey Kong, entre outros jogos mais simples.

Adventure Island, para Nintendinho

No Braga Cortes, conheci grandes amigos da minha infância, entre eles o Ricardo e o Juliano. E lá também tinha uma garota chamada Michele, por quem eu era apaixonado (mas isso contarei em outra oportunidade).

Ricardo era um garoto gente boa, uma pessoa simples, vivia com a mãe e com a avó nos fundos do Instituto do Cego, em nossa cidade. Ele era bochechudo e gordinho, andava sempre com um chinelo havaianas no pé, e através dele eu conheci Juliano. Ele e Ricardo eram os meus dois grandes amigos desta escola e passaram a frequentar a minha casa para jogar videogame.

Logo de cara eles ficaram impressionados com o tamanho da minha televisão Philips de 20 polegadas, já que a maioria da molecada jogava em televisores pequenos de 14 polegadas. Juliano era um garoto que tinha vindo de São Paulo para Apucarana, onde ele morava com a mãe em uma casa de madeira ao lado da escola Pica Pau, que por sinal também era próximo à minha casa.

Super Mario, para Nintendinho

Os dois iam frequentemente em minha casa jogar videogame. Juliano gostava muito de doce e sempre carregava um iogurte chamado Flan. Ele subia as escadas do prédio com um sapato maior do que o número do seu pé e sempre fazia um barulhão enquanto andava. Por conta disso, minha avó acabou o apelidando de “sapatudo”. Juliano também sempre queria doces… Em cima da geladeira de casa sempre tinha uma caixa de bombom e ele dizia:

Juliano
Juliano
Semi, pega bombom… Semi, na hora que sua avó sair da cozinha, pega mais um bombom…

Tinha vezes que ele ia na cozinha pegar um bombom escondido, até que foi surpreendido pela minha avó e saiu correndo. O barulho de seu sapatão ecoava pelas escadarias do prédio.

Um belo dia alugamos o jogo Double Dragon 2 na Geração Games, que ficava na frente de casa. No jogo, começamos a colocar nome nos personagens rivais como se representassem nós mesmos. Eu falava :

Semi
Semi
Olha aquele carinha ali esquisito, esse é o Juliano. Olha só! Ele está perdendo… estou detonando o Juliano!

E Juliano retrucava:

Olha aquele magrelo ali… esse é o Semi… olha só, está apanhando! HAHAHA!
Juliano
Juliano

Essa brincadeira foi o início de um estranhamento entre eu e ele que tivemos no intervalo das aulas no Braga Cortes.

Durante o recreio tivemos uma discussão por causa do jogo de videogame. Começamos a falar besteiras um para o outro, até que no meio da discussão ele tentou me acertar um chute, ele levantou a perna para o alto e o seu “sapatão” voou longe.

A molecada que estava em volta começou a rir. Ele foi buscar seu sapato pulando em um pé só, calçou o sapato e veio para cima de mim, mas os amigos intercederam no meio.

Ficamos um tempo sem nos falar. Um estava com raiva do outro. Passávamos mensagens em bilhete através de amigos chamando para briga. Até que um dia, em minha casa, meu amigo Ricardo ligou para Juliano para que nos falássemos.

Semi
Semi
Juliano e aí… vai afinar?
Você que está afinando da briga!
Juliano
Juliano
Semi
Semi
Vamos marcar então?
Na frente da Geração Games, às 3 da tarde, daí você vai apanhar na frente de todo mundo!
Juliano
Juliano
Semi
Semi
Você que vai apanhar…

Acabou que nem eu e nem ele fomos neste dia na Geração Games e o assunto da briga foi aos poucos perdendo força. Ele era torcedor do São Paulo e começou a treinar futsal no Clube 28. Nesse período, eu e meus pais nos mudamos para uma casa na Rua Clóvis da Fonseca (a mesma rua da locadora Play Games) e eu convidei o meu amigo “sapatudo” para ir jogar videogame lá em casa.

Como ele tinha esse grande apetite por doces, sempre procurava um jeito de pegá-los escondido… Uma vez, Juliano aproveitou um momento em que a nossa empregada doméstica estava lavando roupas, pegou uma lata de doce de leite no armário e começou a comer escondido debaixo da mesa. Só que a empregada já estava desconfiada dele e o surpreendeu com duas latas de doce de leite e comendo a terceira com uma colher.

Empregada
Empregada
Seu moleque! Eu sabia que você estava pegando doce no armário!
“Eita Gota!”. Agora eu me ferrei!
Juliano
Juliano

Sempre que ele ficava nervoso ou sem saber o que falar, ele usava este bordão “Eita Gota”. O “sapatudo” saiu correndo tropeçando nos móveis fugindo da empregada, que estava com uma vassoura atrás dele. Eu fui procurá-lo e ele havia sumido, evaporado de casa! Nossos pais acabaram sabendo da história pela nossa empregada e se divertiram muito! Minha mãe o chamou e lhe deu uma lata de doce de leite, e disse que quando quisesse era só pedir, que não precisava se esconder para comer.

Além dos estudos e do videogame, eu comecei a fazer natação na escola Pirajú. Minha mãe sempre me levava e buscava nas aulas. Só que alguns garotos mais velhos que começaram a invocar comigo…

Sempre no vestiário, eles me provocavam e entrávamos em discussão. Uma vez minha mãe levou o “sapatudo” junto quando ia me buscar e, bem neste dia, o garoto mais velho estava me ameaçando. O “sapatudo” chegou, escutou nossa discussão e enfrentou o rapaz mais velho.

Juliano
Juliano
Você vai ter que brigar comigo primeiro, ele é meu amigo e eu não vou deixar você brigar com ele!

O rapaz mais velho fingiu que estava só brincando e saiu do vestiário. Juliano neste dia se mostrou um amigo leal e me disse:

Juliano
Juliano
Semi, o dia que você precisar é só me chamar, não sou de deixar nenhum amigo meu na mão. Se precisar de mim, é só chamar.

Alguns meses se passaram e ele ganhou de presente de sua mãe um Mega Drive. Ele alugou Moonwalker, do Michael Jackson, Indiana Jones e Castle of Illusion. Neste dia, ele estava muito feliz e me chamou para ir na casa dele jogar. Fomos eu e o Ricardo, jogamos até a noite!

Me recordo de uma fase do Castle of Illusion em que o Mickey era arremessado para o alto por uma cascata de água e ele sempre brincava e dizia nessa hora:

Juliano
Juliano
Animal de Deus!
O sapatudo
Animal de Deus – Ilustração de Elton Silva

A frase pegou e toda hora que o Mickey era arremessado nós todos gritávamos “Animal de Deus”. Neste dia, o Juliano, com uma expressão triste, nos contou que ele e sua mãe se mudariam novamente para São Paulo. Eu e o Ricardo pensamos que nunca mais veríamos nosso amigo novamente.

Após 20 anos, no ano de 2012, eu voltei na escola Braga Cortes para fazer uma filmagem e consegui com a direção do colégio a lista com os nomes de todos os alunos que estudaram comigo na quarta série de 1992. Foi então que eu descobri o nome completo do meu amigo, Juliano Avelino, e o encontrei no Facebook.

Ele estava morando fora do país, na Irlanda, e ficou bastante surpreso pelo fato de eu tê-lo encontrado. Fomos nos falando durante os anos seguintes. Ele sempre comentava sobre meus trabalhos e interagia com minhas postagens. Até que no ano de 2017, acompanhando as redes sociais, eu li a triste notícia de que meu amigo de infância havia falecido após uma luta contra um câncer recém-descoberto.

Juliano Avelino, “O Sapatudo”, meu amigo

Fiquei bastante triste com esta notícia e fiz uma homenagem a ele jogando novamente o Castle of Illusion do Mega, e quando o Mickey era arremessado eu falava “Animal de Deus” como na época em que éramos crianças nos anos 90.

Esta história agora faz parte do portal da WarpZone e do inconsciente coletivo das “Memórias de um Play Game”. Até a próxima!

Conheça um pouco mais do meu trabalho como cineasta, veja uma série de animações dos anos 90: